9.1.12

Antropologia de boteco

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense





Há certas lições nessa vida que só se aprende com a prática; se comportar em boteco é uma delas. Depois de uma pesquisa de duas semanas pelos botecos mineiros, onde estou passando férias – digo, estou passando férias não exatamente nos botecos, mas na cidade –, além da experiência já adquirida nos anos anteriores, sinto-me com material suficiente para uma breve explanação sobre o assunto. A primeira lição que os mineiros me ensinaram sobre botecos, aliás, e isso qualquer pessoa é capaz de aprender com algumas horas apenas de prática, é que com os mineiros não se brinca. Em resumo: cautela e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém, mas o mesmo não se pode dizer sobre a cachaça.

Seja como for, cheguei à conclusão de que a pior coisa de boteco – e não importa o paradoxo – é justamente o bêbado. Por exemplo, quando você chega atrasado no boteco e já tem dois bêbados esperando na mesa. Um bêbado só é legal em três situações: quando está bem longe de você, pois assim você não se compromete; quando é alguém famoso, por motivos óbvios; ou quando é você próprio. O pior bêbado, por outro lado, é aquele com quem você cultiva plena intimidade: amigos e principalmente familiares. Intimidade em boteco, aliás, de maneira geral, não é uma coisa muito boa.

Ficar bêbado, em todo caso, é bem diferente de ficar altinho ou alegrinho; meu pai chama esse estado de tonturinha. É aquele estado em que você começa a dizer umas loucurinhas com distinção e elegância. Você vai chamar o garçom de “meu nobre cavalheiro” e quando pedir uma nova cerveja dirá a ele: “só se não fizer falta...”, como sempre faz um amigo meu. Aliás, esse meu amigo, mesmo sem pedir água sem gás, dificilmente demonstra que está bêbado: ele fica até o fim da noite – momento em que os garçons começam a empilhar as cadeiras sobre as mesas, com exceção da nossa, talvez o espetáculo mais bonito do planeta – com a mesma cara das nove e meia, embora não com o mesmo coração.

O sujeito que possui boa experiência em boteco, de fato, consegue permanecer altinho por mais tempo, como se fosse um equilibrista sobre a corda bamba da razão. Há inúmeros signos que acusam o fim do estado altinho e anunciam o começo de uma tragédia: alguns signos são indícios, outros são certezas. Derrubar copo, por exemplo, é o primeiro indício. Na hora, pra não haver problema, os amigos vão dizer que foi só um acidente, mas não é bem assim. O discurso sentimental também, como já se sabe, aparece logo depois. E se o sujeito derruba o copo e ainda diz que te considera, pode esperar que ele deve cantar a sua namorada 15 minutos depois ou, no melhor dos casos, vai recitar pra mesa inteira uma canção do Roberto Carlos.

Mas há outra coisa ainda pior nos botecos: sentar em lugar ruim. Isso serve tanto pra sua posição na mesa quanto pra posição da sua mesa em relação ao bar. Se você senta na ponta, em uma mesa de canto e ainda cai um bêbado do teu lado, bem, o nome disso é inferno; acontece com pessoas que foram bêbados muito chatos em vidas passadas. Nesse caso, o bêbado – o bêbado da vida presente – vai falar alto com você. Não vai ouvi-lo. Pra resumir, eu diria que o bêbado vai querer emitir opiniões altamente discutíveis com a autoridade de um mestre de cerimônia. Bêbados não têm modéstia. Além de mais bonitos e mais fortes, pensam também que são três vezes mais inteligentes do que realmente são. Mas nunca são três vezes mais ricos. A hora de pagar a conta é o único momento em que o bêbado tem alguma lucidez

4 comentários:

gilvas disse...

devido à quantidade brutal de hormônios que os galináceos de 35 dias são forçados a engolir, eu sugiro que o ditado seja revisto.

Anônimo disse...

"Depois de uma pesquisa de duas semanas pelos botecos mineiros, onde estou passando férias"

?!

E não liga pros amigos mineiros,
só pros botecos.
Magoei demais da conta, gente!

Lengo D'Noronha disse...

Aproveita bem os botecos aí da terrinha, Victor, pois é uma das coisas que mais sinto falta aqui na Ilha. BH não tem comparação no quesito 'comidas e bebidas de boteco'.

Anônimo disse...

Oi Victor,
Não sabia que mineiro era assim! Uaiiiii.
Bjus da vó Jussara