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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense
Por Victor da Rosa para Diário Catarinense

Na última quinta-feira, dia 26, duas mulheres morenas, altas e magras, vestidas de maneira inadequada para a ocasião – vestido longo preto, óculos escuros, salto alto, maquiagem e penteado transado, com três ou quatro sacolas de compras em cada mão, com nomes de lojas de roupas e jóias, até onde pude perceber, etc. – foram vistas passeando pelas areias da Praia Mole, em Florianópolis, como se as pessoas fossem as suas próprias vitrines, como se nada estivesse acontecendo em volta delas, rindo alto e conversando sem parar.
Em torno das duas horas da tarde, sob os olhos incrédulos de centenas de banhistas, dezenas de surfistas e mais meia dúzia de salva-vidas, que nada puderam fazer, pois elas não estavam se afogando, mas apenas caminhando na areia, além dos meus próprios olhos e de outros dois amigos paulistanos, que foram obrigados a interromper a conversa sobre qual governador é pior – o nosso ou o deles – as duas mulheres desfilaram durante uns vinte minutos e voltaram para o carro, deixando a marca dos furinhos do salto alto na areia, impávidas, só não parando o trânsito porque trânsito não havia, como se nada mesmo estivesse acontecendo.
E do mesmo modo como entraram na praia – na passarela, no bulevar – elas também partiram: sem falar com mais ninguém, sem tocar a ponta do pé na água gelada da Praia Mole, sem apoiar as sacolas em algum quiosque pra descansar um pouco e tomar um suco, sem nem tirar o salto para caminhar melhor na areia, sem azarar ninguém, ignorando completamente o pequeno alvoroço que criaram entre homens, mulheres, adultos e crianças, enfim, talvez sem encontrar também o que estavam procurando; e o que estavam procurando, afinal?
– Mãããe, aquelas duas moças que estão passando ali são malucas da cabeça ou o quê!? – perguntou um moleque, com a sinceridade que só as crianças podem ter, pergunta que por isso lhe rendeu um safanão.
Uns diziam que as mulheres estavam atrás dos respectivos maridos; outros diziam, com algum exagero, que elas haviam acabado de fugir do hospício; há quem afirmasse que estavam perdidas, embora não parecesse; e há quem dissesse ainda que elas deviam ser duas artistas excêntricas de passagem pela ilha, resquícios do ano novo, antecipação do Carnaval, fantasiadas de peruas, vai saber – mas a verdade é que ninguém teve coragem de ir perguntar qualquer coisa a elas, nem oferecer ajuda pra carregar suas bolsas, nem saber dos seus nomes, nem mesmo a vendedora de biquínis lhes ofereceu dois deles para que ficassem mais confortáveis, nem um mergulho, um bronzeado, nada disso.
No entanto, é bem provável que fossem, elas também, principalmente pelo sotaque, assim como os meus amigos de férias, duas paulistanas; e de fato, durante grande parte do percurso, elas não pararam de falar um minuto, puxando o R e mudando de assunto com a velocidade de um controle remoto, sendo a maioria da conversa pura frivolidade, até onde foi possível acompanhar: a prova do líder do Big Brother Brasil, o último clipe da Mallu Magalhães, os filmes indicados ao Oscar, o próximo SP Fashion Week, o segredo de Fina Estampa e o calor, ai, o calor.
– Alguém, por favor, liga o ar-condicionado! – foi a última frase que ouvi de uma delas, sem que ninguém soubesse me dizer se aquilo era uma ordem, uma espécie de loucura ou apenas um gracejo.
3 comentários:
Já vi essa história em outras praias.
Quanto foi mesmo que você cobrou pelo artigo pras suas amigas? Em reais, heim? Vê lá.
se cobrou deve ter sido barato.. o litoral brasileiro fica cheio de loucos essa época e, seguramente, no carnaval a situação se agrava!
ouvi falar que foram milhões...!
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