30.1.12

Duas mulheres e um segredo

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense





Na última quinta-feira, dia 26, duas mulheres morenas, altas e magras, vestidas de maneira inadequada para a ocasião – vestido longo preto, óculos escuros, salto alto, maquiagem e penteado transado, com três ou quatro sacolas de compras em cada mão, com nomes de lojas de roupas e jóias, até onde pude perceber, etc. – foram vistas passeando pelas areias da Praia Mole, em Florianópolis, como se as pessoas fossem as suas próprias vitrines, como se nada estivesse acontecendo em volta delas, rindo alto e conversando sem parar.

Em torno das duas horas da tarde, sob os olhos incrédulos de centenas de banhistas, dezenas de surfistas e mais meia dúzia de salva-vidas, que nada puderam fazer, pois elas não estavam se afogando, mas apenas caminhando na areia, além dos meus próprios olhos e de outros dois amigos paulistanos, que foram obrigados a interromper a conversa sobre qual governador é pior – o nosso ou o deles – as duas mulheres desfilaram durante uns vinte minutos e voltaram para o carro, deixando a marca dos furinhos do salto alto na areia, impávidas, só não parando o trânsito porque trânsito não havia, como se nada mesmo estivesse acontecendo.

E do mesmo modo como entraram na praia – na passarela, no bulevar – elas também partiram: sem falar com mais ninguém, sem tocar a ponta do pé na água gelada da Praia Mole, sem apoiar as sacolas em algum quiosque pra descansar um pouco e tomar um suco, sem nem tirar o salto para caminhar melhor na areia, sem azarar ninguém, ignorando completamente o pequeno alvoroço que criaram entre homens, mulheres, adultos e crianças, enfim, talvez sem encontrar também o que estavam procurando; e o que estavam procurando, afinal?

– Mãããe, aquelas duas moças que estão passando ali são malucas da cabeça ou o quê!? – perguntou um moleque, com a sinceridade que só as crianças podem ter, pergunta que por isso lhe rendeu um safanão.

Uns diziam que as mulheres estavam atrás dos respectivos maridos; outros diziam, com algum exagero, que elas haviam acabado de fugir do hospício; há quem afirmasse que estavam perdidas, embora não parecesse; e há quem dissesse ainda que elas deviam ser duas artistas excêntricas de passagem pela ilha, resquícios do ano novo, antecipação do Carnaval, fantasiadas de peruas, vai saber – mas a verdade é que ninguém teve coragem de ir perguntar qualquer coisa a elas, nem oferecer ajuda pra carregar suas bolsas, nem saber dos seus nomes, nem mesmo a vendedora de biquínis lhes ofereceu dois deles para que ficassem mais confortáveis, nem um mergulho, um bronzeado, nada disso.

No entanto, é bem provável que fossem, elas também, principalmente pelo sotaque, assim como os meus amigos de férias, duas paulistanas; e de fato, durante grande parte do percurso, elas não pararam de falar um minuto, puxando o R e mudando de assunto com a velocidade de um controle remoto, sendo a maioria da conversa pura frivolidade, até onde foi possível acompanhar: a prova do líder do Big Brother Brasil, o último clipe da Mallu Magalhães, os filmes indicados ao Oscar, o próximo SP Fashion Week, o segredo de Fina Estampa e o calor, ai, o calor.

– Alguém, por favor, liga o ar-condicionado! – foi a última frase que ouvi de uma delas, sem que ninguém soubesse me dizer se aquilo era uma ordem, uma espécie de loucura ou apenas um gracejo.

3 comentários:

Anônimo disse...

Já vi essa história em outras praias.
Quanto foi mesmo que você cobrou pelo artigo pras suas amigas? Em reais, heim? Vê lá.

Anônimo disse...

se cobrou deve ter sido barato.. o litoral brasileiro fica cheio de loucos essa época e, seguramente, no carnaval a situação se agrava!

Anônimo disse...

ouvi falar que foram milhões...!