23.1.12

Não existe amor no BBB

.
Por Victor da Rosa para Diário Catarinense





As telenovelas nos ensinaram pelo menos uma coisa: não existe uma fronteira muito definida que separa a ficção da realidade. O que houve de senhoras dando chute na canela de vilão da novela das oito, em quarenta anos de telenovela, não está no gibi. Uma vizinha da minha avó também costumava se referir a atores globais apenas pelo primeiro nome, ou às vezes mesmo através de apelidos criados por ela própria, criando um clima saudável de intimidade entre eles, mas causando algum mal entendido quando falava do Victor Fasano, por exemplo, pois eu sempre achava que ela estava se referindo a mim.

– O Victor é mesmo lindo, né?

– Mas que Victor, mulher?

– Ah, o Victor Fasano...

Por sua vez, a fórmula do Big Brother Brasil não deixa de ser outro passo em direção à falta de entendimento entre participantes e espectadores, dentre eles a vizinha da minha avó. A rigor, sabemos muito pouco ou nada sobre a medida de simulação que motiva cada ato (a princípio, verdadeiro) dos participantes da casa. Uma das respostas de Daniel sobre o suposto estupro não deixa de ser curiosa, sendo a resposta verdade ou mentira: o rapaz teria simulado sexo com Monique para se tornar mais popular. É como acontece na fantasia dos romances, lugar de onde surgem as telenovelas, pelo menos desde Don Juan; personagem que, aliás, segundo reza a lenda, também teria praticado estupro em uma jovem moça de família nobre.

Uma das principais controvérsias sobre a relação entre literatura e direito civil no século XIX é se a ficção, mesmo ela, estava acima da lei. Em francês, aliás, a palavra “nouvelle” significa ao mesmo tempo novela (ficção) e novidade ou notícia (realidade). O escritor francês Gustave Flaubert, por exemplo, foi aos tribunais por conta de seu romance Madame Bovary, apenas porque sua personagem, Emma Bovary, deu uns tantos chifres no marido. Um chifre nos dias de hoje não faz nem cócegas na ordem do nosso imaginário, mas a confusão não mudou tanto assim. Quando Boni diz que o principal problema do BBB é o texto – ou seja, a falta de interesse em tudo que é dito pelos participantes – é como se ele estivesse tratando o BBB como uma telenovela.

Em edições passadas do programa, alguém disse também que chega um momento dentro da casa em que o participante esquece que está sendo observado; ou seja, esquece que o BBB é um jogo, como se gosta de dizer. Em outras palavras, se a telenovela é uma ficção construída segundo a perspectiva da verdade, então o reality show – fórmula em si mesma paradoxal, pois show e realidade não são compatíveis – é uma realidade vista e vivida através do puro espetáculo. Outra curiosidade é que o resumo diário do programa é transmitido logo após a última telenovela do dia, assim como as chamadas para notícias nas capas de sites aparecem todas misturadas: “Álvaro revela para Tereza Cristina que sabe tudo sobre o segredo dela.”

Sempre considerei a fórmula do BBB interessante, embora agora já esteja bem desgastada – não é em vão que, embora o programa já esteja em sua décima segunda edição, a audiência não para de cair. Seja como for, parece bem divertida a idéia de colocar várias pessoas diferentes no mesmo lugar e observar como elas se comportam na medida em que são obrigadas a conviver, desde que elas queiram. No entanto, por mais que possa parecer, o BBB não é uma telenovela interativa. Aliás, talvez a única diferença entre o reality show e a telenovela é que, afinal de contas, o reality show não é uma telenovela. Enfim, que não haja amor no BBB, como disseram na semana passada, nem é algo tão evidente assim.

Um comentário:

rafael campos rocha disse...

victor, vc é um libertário. esse é o melhor elogio que eu posso fazer pra alguém.