16.1.12

Rica e o novo rico

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense





De fato, nem tudo é uma delícia em Jurerê Internacional. Pelo menos é o que indicam as mais recentes estimativas.

Semana passada circulou pela internet, após ser publicada no blog do colunista Cacau Menezes, uma carta assinada por um morador de um bairro que agora é conhecido também como a segunda casa de Michel Teló; bairro que continua sendo, apesar disso tudo, “o destino mais desejado do litoral brasileiro”. Eu aprendi que o desejo das pessoas é algo que a gente não deve discutir, mas a carta de Rica Ribas – é assim que o morador de Jurerê Internacional assina, sendo Rica provavelmente uma abreviação de Ricardo, o que não deixa de ser sintomático – é um documento que merece ser lido.

A carta tem certo valor por uma série de motivos, inclusive por alguns motivos que o próprio Rica (vou chamá-lo assim também) nem desconfia. Por um lado, Rica esboça um interessante retrato dos turistas que passaram a freqüentar a praia, como um “casalzinho de Erechim” e “bombadões com correntes de prata”, enfatizando que nunca viu rico de verdade usar correntes assim, nem de ouro aliás; por outro, a carta é também um testemunho sobre o que um morador autêntico de Jurerê Internacional – Rica vive lá há mais de cinco anos – pensa sobre a vida.

A carta circulou amplamente pela internet porque Rica descreve com conhecimento de causa algumas barbaridades que acontecem no seu bairro e que, por motivos óbvios, acabam não sendo noticiadas: bêbados cantando “Ai, se eu te pego!” às seis horas da manhã, muitos acidentes de automóvel, gente pelada dormindo na sua garagem, enfim, uma verdadeira algazarra; e assim Rica chega à conclusão de que “99% da população de turistas de Jurerê é composta de IDIOTAS”.

Chega um momento, no entanto, em que a carta de Rica torna-se um pouco confusa. Em resumo, Rica parece sugerir a controvertida tese de que o problema do turismo em Jurerê Internacional, afinal, é a falta de ricos. Os 99% de idiotas da contagem de Rica são “os paulistas que economizam o ano inteiro para alugar uma casa dividida em 20 pessoas”, “gente que considera Michel Teló o máximo”, “bandidos que usam camisa de jogador de pólo cheia de bordado” e também o já citado “casalzinho de Erechim”, que pelo diminutivo me pareceu inofensivo.


Confesso que, nesse momento, tive curiosidade de saber quem faz parte da parcela de 1% imaginada por Rica e principalmente quais são as músicas que tocam no seu iPod, mas até onde sei as festas de Jurerê Internacional nunca foram freqüentadas por pós-graduandos em Harvard e muito menos por pobres, e sim por novos ricos, sejam eles turistas ou mesmo moradores, os vizinhos de Rica, no caso. Afinal, pobre não tem condições de comprar “camarote$, pul$eirinha$, champã$ e ferrari$”, nem se economizarem a vida inteira. E carro de pobre, quando muito, anda no máximo até 120km/h.

Com uns vinte anos de atraso, Rica também descobriu que o turismo, afinal, não vale o retorno financeiro que oferece pra cidade, ou pra “meia dúzia de empresários apenas”, pessoas ricas elas também. Por que Rica descobriu isso só agora? Verdade também que policial não costuma bater na porta de apartamentos localizados na linha do mar e nem de parar ferrari$ para realizar testes do bafômetro, como Rica gostaria que acontecesse. O que nos faz concluir, dentre outras coisas, que as perspectivas para Rica não são das melhores.


Enfim, acredito que Rica tem todo o direito de reclamar do que julga serem os problemas de seu bairro; afinal ninguém gosta de acordar com um cara pelado na própria garagem, salvo engano. No entanto, acredito que faltou para Rica também uma autocrítica.

3 comentários:

Tiago Mesquita disse...

Muito bom meu querido!

Victor da Rosa disse...

valeu, mestre!

Sergio Rios disse...

Amigo, parabéns. Aqui em Canasviei entre 01:00 e 07:00 da manhã, ninguém dorme e a PM nada faz.