27.2.12

Maldito, Benedito

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense








Dia desses, folheando uma edição meio velha da revista Rolling Stone que tinha como matéria de capa uma lista das “100 Melhores Músicas Brasileiras”, tarefa capaz de fazer qualquer jornalista feliz, chamou a atenção a ausência de Itamar Assumpção (1949-2003), compositor que muitos consideram um dos maiores do país. A ausência de Itamar é quase uma gafe; seria caso o músico ainda não tivesse, quase dez anos depois de sua morte, a má fama de maldito. De qualquer maneira, não deixa de ser uma dessas injustiças tipicamente brasileiras, já que muitas vezes deixamos de conhecer o que há de mais sofisticado na nossa cultura.

Itamar Assumpção fazia uma música que, sendo ao mesmo tempo solar e noturna, poderia ser definida entre o futebol e a macumba. Filho de pai de santo, jogador de futebol mais ou menos frustrado, músico autodidata, preto até o osso, nego dito, tudo isso; e mais um pouco... Em pouco mais de 30 anos de carreira, Itamar não deixou de se equilibrar sobre a corda bamba da MPB: a rigor, não fazia nem rock, nem funk, nem samba – ou seja, não vendia uma imagem de bom brasileiro – mas misturava tudo que aparecia pela frente.

Desde Beleléu e sua banda, a Isca de Polícia, disco marcante de 1980, até sua parceria com Naná Vasconcelos, já no fim de sua vida, no ano de 2003, Itamar levou aos lugares mais consequentes, se quisermos lhe dar algum rótulo, o rótulo de independente. O que parece é que sempre fez o que lhe deu na telha, como acontece com os grandes artistas, e pouco ou nada negociou com o mercado. Além de se reinventar a cada trabalho, Itamar parecia se sentir confortável na sombra. A única coisa que Itamar não abandonou durante toda a sua carreira, aliás, como Cartola, foram os óculos escuros, que variavam entre modelos mais comportados e outros mais bizarros.

Não se deve atribuir o rótulo de maldito a Itamar por conta de sua carreira relativamente curta, pois, apesar da morte precoce, aos 54 anos, o compositor sempre trabalhou muito. De outra maneira, sua música continua tendo interesse entre o público, mas para um público restrito. No ano retrasado, por exemplo, foi lançado pelo SESC de São Paulo uma caixa com todos os seus discos, chamada de Caixa Preta pelo organizador, material que recupera e ao mesmo tempo apresenta a música de Itamar para aqueles que, assim como eu, não tiveram a oportunidade de acompanhar sua trajetória em vida. Em poucos meses, o material se esgotou.

Na caixa, além de toda a sua discografia – que chegou a dez discos (sendo sete independentes) – estão também algumas gravações inéditas, apresentadas em dois CDs, e um catálogo precioso, mas não exaustivo. O nome da Caixa, aliás, não poderia ser melhor: algo resistente, como deve ser a memória de Itamar, um dos artistas mais consistentes do país; mas ao mesmo tempo algo também irônico, já que a cor da Caixa, alaranjada, cor tão solar, deve negar o próprio nome. Aliás, diante de tudo isso, é como se Itamar Assumpção dissesse, por trás dos óculos escuros e de uma calma que lhe era apenas aparente:

– Maldito, vírgula; meu nome é Benedito João dos Santos e Silva Beleléu, Vulgo Nego Dito...

UMA HISTÓRIA EXEMPLAR

Dizem que Itamar Assumpção estava atrasado pra um show, em São Paulo, e um amigo ofereceu levá-lo de moto. Era começo dos anos 1980. No meio do caminho, a polícia parou os dois. Então Itamar explicou ao policial que era músico, estava atrasado pra um show, na boa, aquele papo, mostrou os documentos, e o policial perguntou, interessado, qual o nome da banda. Era Isca da Polícia.

Um comentário:

Anônimo disse...

Uma coisa interessante é ver como ele foi regravado por vários ícones da MPB. Às vezes a gente escuta uma canção boa de um cantor mais ou menos e vai ver é do Itamar A.

Outra coisa legal é que todo mundo (até a filha dele, a Anelis A.) diz que ele era uma pessoa difícil. É como ele fazia questão de frisar: "não estou à venda, menina".

Parece bom o seu repertório de ouvinte. Escreva mais!