13.2.12

Perfil de um Intelectual Comum

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense





Há vários tipos de intelectuais. Tem aquele intelectual que usa bermuda caqui; tem o outro que está sempre em silêncio e as pessoas acham que ele é misterioso, esconde o jogo; tem um terceiro tipo que não faz a barba e se isola do mundo; e tem ainda aquele que vive citando fontes obscuras e falando de coisa que não entende. Enfim, são vários. Mas o pior de todos é o intelectual que torce o nariz quando você diz que assiste Domingão do Faustão. Pelo menos é esse que mais enche o meu saco. Vamos chamá-lo, pra gente se entender melhor, de Intelectual Comum.

Diferente do intelectual obscuro, o Intelectual Comum é capaz de passar meses e até anos citando a mesma coisa. Até hoje não descobri se é por excesso de convicção ou por falta de repertório. No cinema, a preferência de nosso personagem é Jean-Luc Godard, com certeza; na literatura, sem dúvida, é Samuel Beckett; Salvador Dalí não presta, por outro lado, pois ele flertou com a Disneylândia; na música, o Intelectual Comum não pode nem ouvir falar no nome de Caetano Veloso, Deus me livre; e por aí vai...

Depois, nem preciso dizer que o Intelectual Comum não tem televisão em casa. No máximo, tem um projetor... Depois que a Marília Gabriela assumiu a apresentação do programa Roda Viva, nem TV Cultura ele assiste mais. Ou será que tem televisão e a gente não sabe? No lugar da televisão, seja como for, sempre vejo uma adega de vinho, um móvel minimalista sem nada em cima ou uma pintura de algum Artista Comum, pois eles também existem. Todos eles, tanto os artistas quanto os intelectuais, são conhecidos por cultivar o bom gosto. Dificilmente ficam bêbados e jamais comem mortadela. Aliás, o intelectual Comum até gosta de cerveja, mas só daquelas mais finas: artesanais, alemãs, sei lá, pois ele não bebe, e sim degusta.

O Intelectual Comum também tem lá as suas convicções políticas. Afinal, não se trata de um alienado. Pelo contrário: sempre está defendendo alguma coisa. Ultimamente, por exemplo, ele tem defendido o Copyleft, a transparência nas leis de incentivo à cultura e a preservação da natureza. Defende os animais também. E a melhora na educação. Na verdade, o Intelectual Comum defende muitas coisas. O que pintar, está defendendo. Defende mais do que goleiro de time pequeno. A estratégia é mostrar que tem consciência e posicionamento, mas sem importunar muito ninguém.

A principal plataforma de ação política do Intelectual Comum é o facebook. É muito fácil reconhecer um intelectual destes no facebook. Ele vive postando textos do Instituto Moreira Salles e livros da Cosac Naify, além de fotos de cinema e jazz, muito jazz, e curtindo a Casa Rui Barbosa também, mas um versinho do Wando nem pensar. Depois, ele jamais curte meu status quando eu digo alguma bobagem por lá, mas dia destes escrevi um negócio mais cabeça, só pra fazer um teste, e saiu uma penca do armário:

– Interessantíssimo!

– Excelente sugestão!

– Já compartilhei!

– Mais que demais!

O Intelectual Comum reclama muito do verão e nos próximos dias deve começar a reclamar do Carnaval também. No inverno, vai reclamar do frio. Faz um ano que está reclamando da Copa do Mundo no Brasil e da corrupção. Aliás, o Intelectual Comum reclama muito de qualquer coisa. Ele acha muito gostoso reclamar. Oxalá reclame desta crônica também.

13 comentários:

Anônimo disse...

intelectual comum , pseudo cronistas, wanna be Raul Antelo, "foi a Buenos Aires e acha que é Borges": rótulos infinitos para ignorância idem.

Victor da Rosa disse...

sem dúvida

Gabriel Veppo disse...

Ahh, esse anônimo aí deve ser o que escreveu a declaração de amor, Victor.

Luiz disse...

O Intelectual comum escreve sobre os intelectuais comuns em blogs.

João Guilherme Dayrell disse...

Negócio é que Godard é realmente foda e, TV, muito chato. =)


Abraços, meu caro!

Victor da Rosa disse...

pior é que eu concordo...

abração!

mara paulina arruda disse...

Você é ótimo Victor da Rosa. Só fiquei matutando a questão de reclamar do tempo...hummm, algo me diz que estou no caminho de alguém comum! Um abraço.

Victor da Rosa disse...

mas veja joão, o texto não é exatamente sobre isso

miimss disse...

André está aqui declarando todo seu amor aos teus textos. Compartilho. =)

João Guilherme Dayrell disse...

Há um modo estereotipado - enfadonho, quando não meio estúpido - de lidar com estes objetos que não, necessariamente, diz algo sobre eles. Bom delinea-lo para ver o quanto ele está em nós.

Abraços!

Gabriel P. Knoll disse...

Vitinho, eu não sou intelectual, mas porra, defender o Faustão é dose. O cara tá fazendo o mesmo programa há mais de 20 anos. Tem "vídeo cacetada" da época que eu achava aquilo engraçado rolando no ar como "as novas vídeos cacetadas do domingão". Sei lá...

ah! Quero ver é a rapaziada intelectual escutar UDR... daí sim eu dou crédito pra eles.

abração.

Lengo D'Noronha disse...

Muito boa, Victor. Conhece algum intelectual incomum?

Anônimo disse...

Wanna be Raul Antelo foi a melhor! ahuauhhuahuauhauhauhauh