6.2.12

Polícia para quem precisa

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense






Por mais que exista gente que defenda isso ou aquilo, não dá pra negar que a foto do policial militar simulando amor carnal com uma das vaquinhas da Cow Parade, em Florianópolis, ficou simplesmente perfeita. É impossível olhar a foto e não morrer de rir. Pelo menos eu, que tenho o riso frouxo, não consigo. Com tanto policial chutando gente pelo Brasil afora, principalmente na cidade de São Paulo, mas não só, como já estamos cansados de saber, ver uma foto dessas faz a gente acreditar outra vez na beleza da vida. Aliás, não deixa de ser preocupante que as pessoas fiquem mais revoltadas com uma foto dessas do que com um policial agredindo um civil, como se vê todos os dias na internet. Um policial dificilmente faz algo simpático; quando faz, é recriminado. Vai entender.

O ângulo panorâmico da fotografia, de autoria de Eduardo Valente, dá a impressão de que seja o olho de Deus vigiando e punindo os pecadores. De fato, os policiais – sobretudo o amante, pecador maior – estão sendo flagrados por alguém que parece invisível, como deve acontecer sempre com todo bom fotógrafo. Trata-se de uma combinação entre o extremo do improviso e da perfeição. Afinal, onde estava Eduardo Valente no momento em que fez a foto? E ainda com uma câmera profissional a seu dispor! Parece que estava em cima da torre do Mercado Público... De resto, todos os outros policiais exercem funções exemplares na fotografia. Vamos a elas.

Além do amante, há outros dois policiais fotografando, duas presenças que enriquecem consideravelmente a cena e acabam atribuindo uma autoconsciência ao divertimento dos rapazes; há também um quarto policial rindo, bem à vontade ao lado dos outros, presença que é como se fosse a nossa – de todos, eu me identifico mais com ele – pelo simples fato de que está apenas rindo; e há ainda um quinto e último policial esperando seus colegas na viatura. O último policial esperando, a meu ver, é o mais misterioso. Não dá pra ter nenhuma idéia da expressão de seu rosto. Ele é cúmplice, testemunha ou apenas um espectador? É uma bela pergunta! Na minha leitura, ele representa os bons costumes se recusando a participar da cena, mas não tenho certeza disso.

Outra coisa interessante da fotografia é que as duas placas das viaturas, pra azar de alguns e deleite de outros, estão absolutamente legíveis. Eu mesmo consigo soletrá-las: MHD – 2034 e MFC – 0041. Por um lado, estamos diante de uma foto bem poética, uma bela composição de luz e sombra, representando uma cena também poética: uma cena de amor inusitada, digamos assim; por outro lado, temos um documento de denúncia, que inclusive propiciou o afastamento de quatro policiais, e não cinco, pois aquele que permaneceu sentado dentro do carro saiu ileso da situação. Enfim, a fotografia pode ser comparada com um desses gols incríveis que um jogador de futebol faz de fora da área, quase do meio de campo, e que dificilmente acertará outra vez.

Gostaria de dizer ainda que alguém deu a essas vacas do Cow Parade o que realmente elas merecem. Todo mundo costuma tirar fotos meigas com essas vaquinhas e colocar no facebook, mas ninguém até então, salvo engano, tinha feito algo realmente criativo e conseqüente com elas. Não vejo nenhuma graça nessa mania das vaquinhas. Em matéria de arte, prefiro muito mais o happening dos policiais.

2 comentários:

Anônimo disse...

o silêncio que precede...

... o apedrejamento?

... ou um silêncio ainda maior?

... ou vc vai publicar as centenas de cartas de leitores que recebeu durante a semana?

Victor da Rosa disse...

só publico quando falam muito mal