23.4.12

Uma rua de duas mãos

Por Victor da Rosa
crônica publicada no Diário Catarinense

Durante algum tempo tive um amigo – ainda hoje não sei se posso chamá-lo assim – que morava na rua. Convivemos, esporadicamente, durante mais de dois anos; e depois, do nada, ele sumiu. Seu nome é Pablo, ele deixou a cidade de Santos por algum motivo que nunca ficou muito claro pra mim – em Santos, teve casa, emprego e mulher – e chegou a Florianópolis atraído pelas praias e com perspectivas de ganhar dinheiro trabalhando no verão. Depois de uma série de problemas, no entanto, Pablo acabou na rua. Pelo menos, em resumo, foi esta a história que ele contou pra mim.

Eu não tenho tantos motivos pra duvidar das coisas que Pablo me dizia. Pra começar, diferente da maneira como geralmente acontece, fui eu quem lhe procurei. No bairro de Coqueiros, enquanto esperava um ônibus, pude presenciar Pablo ironizando uma senhora (aparentemente abonada) de maneira muito elegante. Após ganhar poucos centavos, Pablo disse a ela – com a expressão firme, mas tranqüila, e um acentuado sotaque paulistano – que só aceitaria a esmola se realmente não fizesse falta.

Era como se, através da ironia, Pablo ainda quisesse se colocar na situação como alguém superior. Talvez fosse uma forma de resistência; um truque pra recuperar alguma dignidade. Passei a vê-lo como alguém que entra em um jogo sabendo que está perdido, mas ainda tem segurança suficiente pra rir de si próprio. Fui falar com ele em seguida. No fim da conversa, expliquei onde eu morava, ofereci algum dinheiro – disse que não faria falta – e deixei o número do meu celular. Percebi que Pablo, além de inteligente, tinha uma caligrafia bonita.

Passei a lhe dar comida, roupas que não usava mais, alguns objetos que poderiam ser úteis e às vezes oferecia uma rodada de cervejas em algum boteco no bairro. Fiquei surpreso quando ele negou duas calças e um cobertor, alegando, obviamente, que não tinha onde guardar; afinal, toda sua vida devia ser levada em uma mochila pequena. Em troca, Pablo trazia algumas coisas que encontrava ou ganhava pela rua – uma vez apareceu com dois improváveis bilhetes para um show de pagode – e ficava ofendido quando eu não aceitava. Em resumo, nossos encontros passaram a ser uma espécie de reedição dos primeiros encontros entre índios e portugueses no tempo da conquista da América.

A breve amizade com Pablo me fez pensar sobre algumas coisas. Primeiro, passei a ter dúvidas sobre qual é a melhor maneira de tratar um morador de rua quando ele quer dinheiro, por exemplo. Dar dinheiro não resolve nada, de fato, mas não dar também não resolve. A melhor opção, claro, é não pensar sobre o assunto; ou então se convencer com pressa de alguma campanha, algo como “quem dá esmola não dá futuro” ou qualquer tolice assim. Seja como for, eu tentava ajudar Pablo em pequenas coisas porque lhe considerava um sujeito legal, embora jamais tenha lhe convidado para tomar um café na mesa de minha casa.

Depois, e isto deve assustar um pouco, eu pensava que a fronteira que nos separa de um indigente – nós, sujeitos de classe média – não é tão segura assim. No fim das contas, embora Pablo chegasse a ficar um mês sem tomar um banho decente, passei a achar que éramos duas pessoas parecidas; e eu tinha também a sensação de que ele podia deixar aquela vida a qualquer momento, mas não queria. Aos poucos fui percebendo que Pablo gostava de viver na rua; em sua cabeça, a rua era um lugar que oferecia perigo, mas também liberdade. Talvez a mesma liberdade que tenha feito Pablo sumir sem deixar notícia.