16.4.12

Volta à Ilha em 48 horas

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Por Victor da Rosa
crônica para Diário Catarinense






Uma das graças de receber amigos de outros lugares é que você acaba se obrigando a visitar lugares que não visitaria sozinho. Uma das graças ou um dos pesadelos, depende. Faz umas semanas, dois amigos vieram a Florianópolis pra me ver, descansar e fazer turismo, não necessariamente nesta ordem. Um deles é poeta; e o outro, digamos, é um turista profissional. O que é um turista profissional? É aquele sujeito que calcula uma viagem romântica, por exemplo, de acordo com as fases da lua. “Seria ideal nesse fim de semana porque seriam dias de lua cheia, compreende?”, ele me perguntou. Eu disse que compreendia. De fato, havia um roteiro pronto para que eu pudesse, eventualmente, avaliar.

O roteiro programava toda a sexta-feira – ficou determinado, sem que eu pudesse emitir qualquer opinião, que eu teria que acordar antes das 8h para acompanhá-los em todo trajeto – e todo o sábado também. O roteiro de um turista profissional, pra quem não sabe, possui uma sequência incrível de informações, distribuídas através de uma variação de negritos, itálicos, cores para diferenciar situações, dados históricos, datas, preços, horários, tamanhos de fontes, números de telefones, endereços, curiosidades, itinerários, muitos detalhes e outras particularidades, como se fossem golpes ininterruptos produzidos por um boxeador peso-pesado alguns segundos antes de nocautear seu adversário; ou seja, uma programação assim deixa qualquer pessoa exausta só na leitura. Mas vamos ao roteiro.

Na manhã de sexta, estava programado que daríamos um passeio pelas praias do Norte da Ilha, começando por Santo Antônio de Lisboa, lugar em que, de fato, chegamos às 8h25m, e terminando com um almoço na Costa da Lagoa – “sequência de camarão (ao bafo, milanesa, etc) no restaurante Lagoa Azul” –, depois de passar por Jurerê, Daniela, Forte, Moçambique e Rio Vermelho. Tudo isso estava indicado no roteiro e tudo isso realizamos em mais ou menos seis horas de muito passeio, realmente; sendo que os dois desciam em todas as praias para tirar umas fotos e colocar o pé na água. Depois do almoço, voltamos pela Barra da Lagoa e passamos também pelas “praias selvagens”, com destaque para a Praia Mole, “a mais sexy da ilha”. Era um lindo dia de sol.

O único ponto do roteiro que questionei foi o programa de sexta à noite. Havia três opções: Armazém Vieira, Café Cancun ou Café Matisse. Fiquei curioso pra saber qual problema de saúde tem a pessoa que sugeriu estes lugares aos meus amigos, mas depois acabei esquecendo de perguntar. Argumentei que o Café Matisse – aliás, nem sei se voltou depois da reforma do CIC – tinha recebido o apelido de Café Chatice, por motivos óbvios. Aliás, no roteiro, o Café Matisse estava descrito como um “point de artistas, jornalistas e escritores”, o que me deixou, além de contrariado, também muito surpreso. Depois das ilusões desfeitas, os dois preferiram aproveitar a sexta-feira pra dormir.




No sábado de manhã, bem cedo, fomos em direção ao Sul, minha região preferida. O roteiro previa, além de um passeio na Ilha do Campeche, também uma visita à Associação dos Pescadores da Praia da Armação, o que me pareceu um pouco descabido, mas no fim eles acabaram esquecendo essa parte. Voltamos ao Centro em tempo de tirar umas fotos ao redor da figueira e pegar o Museu Cruz e Sousa aberto, certamente o momento de maior decepção da viagem. Eu revelei aos meus amigos que, por prudência e pudor, eu jamais havia entrado no Museu, e agora me sinto arrependido por ter traído a minha intuição. No sábado à noite, finalmente, fizemos um programa que não estava no roteiro, algo impossível de ser revelado aqui.

2 comentários:

Anônimo disse...

ô victor, esse texto ninguém comentou, mas tá ótemo!
glaucia

Alessandra Knoll Pereira disse...

o museu cruz e souza é o mesmo desde quando eu fui la criança. não muda nada.... e não tem muita coisa mesmo pra mudar. O melhor do palácio são as exposições que ficam n outro lado e o pátio...pra quem quer namorar na sombra das árvores ou no sol.