21.5.12

Biblioteca de Babel

 Por Victor da Rosa
crônica publicada no Diário Catarinense


A biblioteca central da UFSC, na verdade, pra quem ainda não entendeu, é um lugar de encontro, descontração, paquera, conquista e muita azaração; ou seja, não é exatamente um lugar pra estudar. Gente falando no celular como se estivesse no programa Altas Horas discutindo se o Neymar deve ou não jogar na Europa já virou uma cena corriqueira. Computadores de pesquisa sendo usados para olhar o facebook também. De uns tempos pra cá, antropologicamente falando, tenho presenciado coisas ainda mais interessantes.

Dia desses, por exemplo, na prateleira de economia, bem do lado da mesa onde eu estava estudando, acompanhei todo o processo de um xaveco: desde o approach até o convite pra “conversar ou tomar um drinque em lugar mais reservado”. Há também calouros que, com os hormônios em estado de ebulição, mesmo com a luz do dia entrando pelas janelas e revelando até aos mais incrédulos todos os segredos daqueles corações juvenis, se beijam de língua como se não houvesse amanhã. Seja nos pufes, atrás das estantes ou até mesmo nas mesas de estudo, quando os livros são esquecidos em uma página qualquer, não há qualquer limite para a descoberta do amor.

– Você vem sempre aqui?

– Só nos fins de semestre...

O ambiente da biblioteca está tão parecido com o El Divino Lounge que a nova reitora, assim que assumiu o cargo, encaminhou um ofício pro Ministério da Educação solicitando a troca da máquina de café por um barril de chopp. O processo ainda está em transição, mas tal decisão, e nem poderia ser diferente, já está causando muita polêmica e ainda mais burburinhos pelos corredores: uns acham que deve ser chopp da Brahma; enquanto outros defendem que o chopp deve ser da Eisenbahn, proposta logo contestada pelo primeiro grupo, que considera a escolha “um sintoma preocupante da elitização das federais”.

Mas agora falando sério.

A biblioteca da UFSC, em muitos aspectos, poderia ser comparada com a Biblioteca de Babel, ou seja, “uma confusão de línguas...” Por outro lado, a comparação com a biblioteca de Jorge Luis Borges não é justa – não é justa com Borges, no caso – pois na biblioteca apresentada no conto do escritor argentino é possível encontrar todos os livros, até aqueles que não foram escritos. Na biblioteca da UFSC, além de não ter os livros que jamais foram escritos, não tem também os que foram escritos nos últimos 20 anos e principalmente aqueles que a gente precisa. Quero dizer com isso, o que não é nenhuma novidade, que a biblioteca da UFSC está defasada faz tempo.

Pensando nisso, gostaria de fazer, nestas últimas linhas, uma sugestão à nova reitora, em quem eu votei ano passado, aliás. Por que não cobrar entradas, já que virou festa, e reverter todo o dinheiro arrecadado para a manutenção do acervo? Homens pagam R$10 e ladies free até meio-dia. Estudantes, naturalmente, terão direito a meia-entrada. Toda sexta-feira pode ter um evento especial: dança afro, roda de choro ou então um DJ estrangeiro pra tocar no hall de entrada. Tem que pensar em uma programação bem animada. Café em dobro enquanto o barril de chopp não chega, pois a gente sabe como são essas burocracias. Garanto que dá certo. Na verdade, não tem erro. A biblioteca da UFSC já mostrou que tem vocação pra isso.

16 comentários:

Alessandra Knoll Pereira disse...

Nossa. Nunca vi estas coisas aí. Até porque pro povo que quer paquerar tem música na quarta-feira, tem eventos e tem a fila do RU. SE a BU ta ficando assim deve ser mesmo porque o acervo ta tão ruim que ninguém vai lá ocm intenção de ler.

Victor da Rosa disse...

Oi, Alessandra, um verdadeiro cronista serve pra isso mesmo: ver pela primeira vez o que ninguém viu antes!

Lucas Inácio disse...

Sou estudante de jornalismo, trabalhei lá durante um ano como bolsista, votei na Roselane como você, mas não vejo metade dos problemas que você vê. Aliás, isso é fruto de falta de informação sua, tanto sobre o processo de atualização do acervo, quanto à suposta falta de recursos para o mesmo. A BU tem coisas a melhorar como qualquer instituição, mas não seria ético revelar estas coisas aqui, pois sei que quem está lá dentro busca resolvê-los.

Procure conversar com quem está lá dentro sobre todas essas coisas. Leve sua reclamação à Direção ou à Divisão de Atendimento ao Usuário, serás recebido, com certeza, e terás conhecimento das ações feitas para essas melhorias. O feedback dos usuários também faz parte desse processo.

Victor da Rosa disse...

Oi, Lucas.
Sou estudante de doutorado, sempre estudei na UFSC e frequento a BU há quase dez anos. Há épocas em que frequento a BU todos os dias da semana.
De modo geral, a crônica não é uma crítica à administração da BU, mas apenas uma observação do comportamento dos alunos, coisas que presenciei em tanto tempo frequentando a biblioteca e que considero mais ou menos engraçadas. Afinal, escrevo crônicas.
Sobre a qualidade do acervo da BU, - e isso vou te responder como pesquisador, e não como cronista - na verdade não há muito o que discutir. Poderia te dar centenas de exemplos de livros absolutamente básicos que não constam no acervo da nossa biblioteca, mas esta lista qualquer um pode fazer.
Não duvido que "quem está lá dentro busca resolver estes problemas", afinal a função destas pessoas é justamente esta, mas nossa biblioteca está ainda bem longe de ser exatamente isso sobre o qual estamos falando: uma biblioteca.
Abraço.

Anônimo disse...

pérola: "-vc vem sempre aqui? - só nos fins de semestres" .
beijo meu e do vicente que já tá no colo e já tá com cólicas.

Victor da Rosa disse...

uau, querida. que boa notícia! muitos beijos para o vicente. adorei saber que ele gostou da crônica ;D

Marly disse...

Victor, assim como o Lucas, também
trabalhei na BU durante uns quinze anos.E lhe asseguro sem medo de errar que uma das rotinas do meu trabalho que me dava muito prazer era o de solicitar compras de materias para a BU. A grande maioria dos pedidos eram sugestões dos usuários da BU.
Tavez voce tenha esquecido de
procurar um(a) bibliotecário (a) para solicitar uma compra do material que voce necessitava, ou mesmo buscar outras alternativas, pois elas existem e não são poucas. Penso que o que faltou para voce, foi procurar se informar melhor sobre os serviços prestados pela BU.
É UM DIREITO SEU.
Ainda há tempo.
Um abraço

Victor da Rosa disse...

Olá, Marly. Qualquer dia escrevo uma crônica listando e solicitando todos os livros básicos que estão faltando na BU, mas receio que a lista não caiba em uma crônica só, pois só tenho 3.500 caracteres por semana. Quanto à campanha pelo silêncio na biblioteca, parece que o MALINO BASTANTÃO não está colocando medo em mais ninguém... Outro abraço, Victor.

PS: Pra quem não conhece o BASTANTÃO: http://portalbu.ufsc.br/campanha-do-silencio/

Anônimo disse...

esse malino bastantão é mesmo muito demodê, não mete medo nem nos alunos dos anos iniciais do aplicação. o problema é que para assustar o povo mal educado presente em qualquer biblioteca acho que nem se a bu adotar um monstro tipo alien x predador 4D.

Ana disse...

Uma coisa importante a se dizer sobre a aquisição de livros para as bibliotecas de qualquer universidade é que os professores tem que informar as mudanças nas bibliografias dos planos de ensino, porque eles servem de base para as compras. Não adianta o professor indicar o material como básico aos alunos, mas não informar, aos responsáveis pela compra, das mudanças. Fiz minha graduação em outra instituição na qual mais de uma vez fui solicitar na biblioteca livros que estavam no plano dos alunos, mas não no enviado a biblioteca.

Anônimo disse...

Gostei muito da crônica. Espirituosa, com tiradas muito boas.

Concordo com o anônimo acima. Já ouvi de professores da própria ufsc que cabe a eles fazer uma lista de livros para a Bu, mas por falta de tempo (e de interesse?) eles acabam deixando para depois.

Cabe aos alunos saber deste fato e cobrar dos professores de cada disciplina, penso eu.

Victor da Rosa disse...

Muito obrigado! Acho também que já se institucionalizou o xerox. Um abraço, Victor.

stoupman disse...

O problema não é a Biblioteca, mas a falta de educação dos estudantes que lá vão. Mas se colocar-mos pessoas para chamar a atenção quanto ao barulho e modos destes, as mesmas pessoas que criticam irão dizer que a ditadura voltou a UFSC.

Anônimo disse...

"colocar-mos"?

hahahahaha

Anônimo disse...

HAHAHA amei isso aqui. coments são uma segunda crônica, tão boa quanto. abs amg.

Carol disse...

desisti do acervo da bu já há alguns semestres, mas achando a crônica um exagero, resolvi mudar de ares e passar na bu pra estudar, ver qual era e... bem, é uma pena que esse aqui seja mesmo um excelente retrato da nossa biblioteca...