16.5.12

Hino à dentada

Brito Broca, em parte de sua crônica sobre a vida literária brasileira do começo do século XX, conta sobre a vida boemia de alguns escritores. Sempre com certa restrição, por ser um sujeito reservado e não gostar muito de festas, Broca deixa transparecer, por exemplo, que lhe surpreende o fato de que alguns desses bêbados tenham realizado obras apreciáveis. Tudo podia se tornar um versinho espirituoso, um trocadilho. “Alguns boêmios pareciam mais empenhados em deixar anedotas do que obras”, diz ele.

Por outro lado, o crítico não deixa de reconhecer que algumas graças tinham o seu valor. Uma delas é o soneto que Emílio de Menezes, um dos grandes piadistas daquele tempo, dedica a Manuel Lebrão, dono da tradicional Confeitaria Colombo. No poema, depois de uma dúzia de voltas e outra dúzia de rimas, como todo malandro sabe fazer como ninguém – se não as rimas, pelo menos as voltas – Emílio de Menezes chega ao ponto: pede uma grana emprestada... Na caricatura, como se pode imaginar, está Emílio de Menezes, e não Brito Broca. Abaixo, o poema.

Requerimento engrossativo mas sincero – Hino à dentada

Lebrão! Tu sabes que a Confeitaria
Colombo é verdadeira sucursal
De nossa muito douta Academia
Mas sem cheiro de empréstimo oficial.

Cerca-te sempre a grande simpatia
De todo literato honesto e leal
E tu te vais tornando dia a dia
O Mecenas de todo o pessoal.

Nisto mostras que és homem de talento
Que não cuidas somente de pasteis
Nem de lucros tirar cento por cento.

Atende, pois, a um dos amigos fiéis
Que está passando por um mau momento
E anda doido a cavar trinta mil-réis...

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