7.5.12

Tradicional Família Mané

Por Victor da Rosa
crônica publicada no Diário Catarinense

Se fosse pra dividir a casa dos meus pais da mesma maneira como fizeram os portugueses e espanhóis quando assinaram o tratado de Tordesilhas, a divisão seria feita com os avaianos de um lado e os alvinegros do outro. Minha mãe e meu irmão são avaianos roxos; enquanto meu pai e a namorada do meu irmão são alvinegros comportados, embora não tenham sangue de barata. De minha parte, pra evitar problemas familiares e sofrimentos desnecessários, permaneço imparcial na história.

Em semana de clássico mané, portanto, a casa dos meus pais fica mais agitada do que a Faixa de Gaza. E nesta última semana, de fato, com 15 títulos estaduais pra cada lado e uma final que não acontecia desde 1999, com o Figueirense fazendo uma campanha exemplar e o Avaí se superando nas últimas rodadas, a coisa está ultrapassando todos os limites. Até na hora de estender as bandeiras nas janelas já deu confusão.

Só para dar uma ideia do ineditismo desta final lá em casa, recorro a uma estatística que não interessa a ninguém, como todas as estatísticas. Meu irmão e a namorada começaram a namorar em 2004, exatamente cinco anos depois daquela final de 1999, quando o Figueirense ficou com o título vencendo o maior rival. Ou seja, esta é a primeira decisão entre Figueirense e Avaí que assistem juntos, que bonito. Na verdade, meu irmão já prometeu que não verá as finais ao lado da namorada, pois ele fica bem nervoso e é capaz até de chorar. Às vezes ele prefere nem assistir aos jogos. Se o namoro passar por essa, não sei o que pode acontecer.

Na verdade, a rivalidade lá na casa dos meus pais acaba se refletindo também nas atividades domésticas. Por exemplo, faz uma semana que minha mãe só prepara bife de fígado acebolado no almoço, que é justamente o prato preferido do meu irmão, motivo de repetidos protestos do meu pai, naturalmente. Meu pai, por sua vez, respondeu a provocação se recusando a levar minha mãe de carro no supermercado. Entre o meu irmão e a namorada a situação também não é muito diferente. Até pijama do Figueirense ela comprou. O pijama, aliás, mereceria um parágrafo inteiro, mas não vou cometer tamanha indiscrição.

Minha mãe é uma torcedora interessante. No fundo, ela não sabe nada de futebol, mas é muito mais bem informada do que todos lá em casa, pois escuta programas esportivos todos os dias na CBN enquanto lava a louça do almoço. De vez em quando ela vem com uma informação diferente: “
sabia que o termo Avaí vem de uma batalha que aconteceu na Guerra do Paraguai no final do século XIX e não tem nada ver com o arquipélago de Hawai, como dizem?” Além do mais, minha mãe tem o hábito bem curioso de secar o Figueirense em reprises. Teve um dia que meu pai chegou de surpresa em casa e flagrou minha mãe, em plena segunda-feira, revendo um jogo do Figueirense com o mesmo afinco do fim de semana. O fato foi amplamente divulgado.

Meu pai é um pouco diferente. Já foi mais apaixonado por futebol, acho que aos poucos foi se desiludindo com o esporte, mas a minha mãe ficou tão insistente com o Avaí de uns tempos pra cá que ele se viu obrigado a voltar a torcer pelo Figueirense. Não para deixá-la feliz, em todo caso, e sim pra recuperar sua posição ameaçada de homem da casa. Grande parte das esperanças do meu pai está depositada nesta final, pois uma vitória do Figueirense deixaria minha mãe calada por uns dois meses, pelo menos, mas ele sabe que clássico é clássico, como diriam os deuses do futebol, e vice-versa.

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