4.6.12

Aforismos na VAN

Por Victor da Rosa
crônica publicada no Diário Catarinense





Ando lendo alguns escritores que praticaram o aforismo, gênero curto que tem como principal objetivo incentivar a leitura entre os preguiçosos. Hoje de manhã, terça-feira, dia 29 de maio, às 9h30m, eu saí de casa com um livro de Oscar Wilde e outro de Vauvenargues, um francês do século XVIII, ambos para ler no ônibus. Sou um leitor compulsivo de ônibus. Leio filosofia francesa no ônibus e não quero nem saber. Dane-se se a retina deslocar, como dizem. Às vezes levo até dicionário. Gosto de ler em ônibus e vou continuar lendo em ônibus enquanto não tirar a carteira de motorista.

Acontece que não havia ônibus em Florianópolis.

Teve greve.

Então o prefeito Dário Berger, que nunca leu em ônibus, largou várias VANs na cidade. Pelo menos é o que dizem. Pensei em voltar para casa e dormir, pedir a meu pai que me buscasse ou qualquer outra coisa que um leitor de aforismos faria, mas como eu tinha que resolver uma série de problemas, havia mesmo um compromisso que era inadiável, resolvi encarar a aventura.

Na minha VAN tinha quatro ou cinco tiazinhas que não paravam de falar. Estavam chateadas. A fila não andava. Nestas horas, quando a situação sai do controle, fica mais evidente que o ser humano, de maneira geral, é meio chato mesmo. Eu desisti de ler Vauvenargues, mas não estava tão apreensivo com a situação. Pra dizer a verdade, estava até me divertindo. Apenas contemplava a agitação humana. Precisava encontrar um jeito de passar o tempo. Então comecei a exercitar aforismos em plena VAN.

Primeiro foi quando todo mundo começou a fazer e receber ligações através do aparelho celular. Eu disse meu primeiro aforismo da manhã: “Com a greve de ônibus quem tem lucro é a Tim, não é, minha senhora?” Ninguém achou muita graça. Um senhor que estava falando no celular até me olhou meio de lado. Acho que o povo perde todo o senso de humor quando os ônibus entram em greve.

Mas não desisti. Era um excelente teste, afinal. Fiquei só esperando uma nova situação. Eu sondava o segundo aforismo como um cão que aguarda o gato descer da árvore pra dar o bote. E como a fila era grande e a VAN quase não andava, então todos começaram a desistir de chegar até o Centro e foram ficando pelo caminho – primeiro uma senhora, depois um garoto e ainda uma das quatro ou cinco tias. Eu disse então: “Isto está parecendo prova de resistência de reality show”. Aí as tias já deram uma risadinha. E uma delas comentou que estava com medo porque na última greve os motoristas de ônibus jogaram tomate nas VANs que passavam. E desta vez então fui rápido e logo emendei: “Não se preocupe, minha senhora, é que da outra vez tinha uma parceria entre o Sindicato dos Motoristas e o Direto do Campo.” Com este aforismo toda a VAN riu, inclusive o motorista, que gostou tanto da piada a ponto de confirmar a informação. Era a glória. E já estava preparando muitos outros aforismos quando a VAN chegou ao Centro. Tivemos que desembarcar.

Na segunda VAN, em direção a Coqueiros, o clima não estava amistoso e então eu fiquei quieto. Preferi não macular a glória já conquistada. Abri o livro de Vauvenargues, o francês. Voltei a ler. E o aforismo estava lá: “Os tolos não compreendem as pessoas de espírito.”

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