11.6.12

Em defesa de Luciano Martins

Por Victor da Rosa
crônica publicada no Diário Catarinense


Há uma série de pessoas na vida sobre as quais, mais cedo ou mais tarde, você acabará tendo que emitir alguma opinião. Por mais que você não queira. Pode ser uma grande personalidade, mas também alguém comum – muitas vezes até sem nenhuma expressão. A própria sogra, por exemplo. Sobre a sogra dos outros, é claro, você não precisa emitir opinião, mas sobre a própria sogra precisa. Você gosta ou não gosta. Tem que saber.

Só Deus – que aliás era um sujeito de opiniões fortes – sabe o prejuízo que é ter opinião. Se você elogia, não passa de bajulador; se põe defeitos, arranja logo um desafeto, pois as pessoas são assim, muito convencidas de seus próprios talentos. A melhor coisa, na falta de melhor opção, é o topo do muro. Se agarrar no topo do muro e não descer de lá nem por pedrada, muito menos por decreto. É o que recomendo, por exemplo, aos meus dois filhos. Mas mesmo nesse caso fica a fama de frouxo, que também não pega bem.

Estas reflexões me ocorreram no lugar onde me ocorrem as melhores reflexões: o bar. Um dia o escritor Silveira de Souza, depois da quinta cerveja, confessou que não gosta de beber muito porque se sente mais inteligente. Comigo é igual. “A diferença é que o Silveira é inteligente quando está sóbrio também”, diz um dos meus alteregos. Mas vamos ao que interessa.

O assunto do bar naquele momento era o artista Luciano Martins. Chamarei o artista de artista para evitar desentendimentos, pois essa coisa de arte é sempre muito complicada, embora as controvérsias existam. Em resumo, a opinião de quase todos na mesa dizia que a arte de Luciano Martins não presta. Até aí tudo bem. Outros, mais radicais, diziam que nem arte era. Vá lá. E havia ainda quem afirmasse que só um semi-analfabeto seria capaz de pendurar um quadro seu na parede. Nesses méritos eu não entro.

De fato, a qualidade dos quadros de Luciano Martins não é um assunto que se discuta, ainda mais em mesa de bar. Primeiro porque qualidade não há; e segundo porque existem coisas mais importantes na vida pra se discutir, como, por exemplo, se as duas mulheres que estavam no outro lado do bar olhando pra nós eram duas mulheres realmente ou dois travestis. É evidente que a pintura de Luciano Martins não presta. E minha admiração pelo artista nasce justamente daí.

O que Luciano Martins faz é vender por um ótimo preço o que não tem valor. Os artistas que só ficam dentro do ateliê pensando na rebimboca da parafuseta nem sabem, mas vender dá um trabalho danado. E não é pra qualquer um. Não é difícil pintar uma bonequinha colorida com cara de tonta, isso é verdade, mas precisa ser bom pra pendurar a bonequinha com cara de tonta na parede da casa de um magnata na Finlândia. Por isso eu acredito que quanto pior a pintura de Luciano Martins ficar, melhor artista ele é.

O que Luciano Martins faz é uma espécie de falsificação legalizada. Claro que não é o único que faz isso, mas não importa. Veja o caso dos vendedores de enciclopédia, que ainda conseguem convencer alguém da utilidade de seu produto. Na verdade, há muita gente que negocia coisas improváveis de serem negociadas, mas é o tamanho do negócio que faz as honras do aldrabão. Talvez um dia Luciano Martins chegue ao nível de convencimento do empresário de Ronaldinho Gaúcho, por exemplo, que conseguiu negociar, aí sim, o inegociável. Enquanto isso, nosso artista não poderá ser alçado à condição de gênio.

4 comentários:

Kézia Lenderly disse...

Em síntese...
Qualquer tolo pode pintar um quadro, mas só um gênio consegue vendê-lo. (Samuel Butler)

Victor da Rosa disse...

Genial essa frase, Kezia. É isso mesmo! Estão dizendo por aí que peguei pesado com Luciano Martins quando, na verdade, estou ressaltando sua grande qualidade de farsante. Tenho uma queda pelos farsantes... Mas é claro que as pessoas inteligentes, como você, irão entender isso!

Raphael disse...

Me lembrei do Paulo Coelho ao ler teu texto...péssimo escritor, mas consegue vender - e bem - seu peixe. Vender, convencer, é coisa pra quem tem talento, e espero que o artista de seu artigo, no fundo, tenha ententido o que você quis dizer. O problema é que vivemos numa época em que "tudo tem seu valor". Não, não tem.

Victor da Rosa disse...

Caro Raphael, não tenho muito essas esperanças...