18.6.12

Breve história de um poema

Por Victor da Rosa
crônica publicada no Diário Catarinense


Houve um período de minha vida em que, assim como muita gente, eu fui poeta. Hoje já não sou mais. Um amigo, ele também ex-poeta, falou uma vez que há mais poetas no mundo do que seres humanos. Ou seres vivos. Já não lembro... O que importa é que há muitos poetas no mundo.

Minha vida de poeta durou exatamente um verão, uma dúzia de poemas e umas vinte bebedeiras. Ou seja, bebi mais do que escrevi. Dentre uma dúzia de poemas, há três ou quatro que são muito bons, sendo que um deles é perfeito. O resto não presta. Posso falar com toda franqueza sobre o tempo em que fui poeta porque, como disse, já não sou mais. Além disso, depois que abandonei a vida de poeta, tornei-me crítico literário. Pra que serve um crítico literário? Serve pra pagar as bebedeiras dos poetas. Então sei bem o que estou dizendo.

Parei de escrever poemas justamente quando o primeiro deles me saiu perfeito. Este não foi o único motivo, e sim um dos principais. Hoje acredito que todos os poetas deveriam fazer o mesmo. Não penso nos cineastas, nos artistas plásticos e até mesmo nos músicos, pois estes têm como conseguir dinheiro e mulheres bonitas, mas e os poetas? Depois de escrever um poema perfeito, você sabe que precisará de muito esforço pra escrever outro igual. Na verdade, talvez nunca mais consiga. A vida é curta. Por isso, acredito que todos os poetas deveriam viver para escrever um poema apenas. Depois é só aproveitar! No entanto, não digo isso aos poetas com quem convivo e nem nas críticas que escrevo. Minha profissão depende dos poetas, principalmente de seus poemas ruins.

Mas voltando ao meu poema.

 Trata-se de uma releitura – em chave meio provocativa – de um poema que o grande poeta João Cabral de Melo Neto dedicou ao jogador de futebol Ademir da Guia. Digo em chave provocativa porque resolvi dedicar o poema a um craque argentino, muitas vezes odiado pelos brasileiros: Román Riquelme. Em certa medida, eu diria até que meu poema ficou um pouquinho melhor do que o poema do mestre. Não estou afirmando com isso que fui melhor poeta do que João Cabral, pois ele tem uma obra imensa, com outros poemas tão bons e alguns melhores ainda, mas se fosse pra colocar só os dois poemas lado a lado, bem...

Eu poderia fazer uma lista de pessoas influentes que apreciaram o meu poema, mas minha discrição não permite. Vou fazer o contrário: falar apenas de um sujeito, entre tantos, que não gostou. Sempre prefiro falar da exceção, nunca da regra. O sujeito que não gostou era poeta. Um poeta mediano.

Tudo começou quando ele disse que críticos não entendem nada de literatura. Os poetas às vezes falam coisas desse tipo, mas tudo bem. No tempo em que era poeta, eu sempre elogiava os críticos, mas cada um sabe o que faz da sua vida. Acham que críticos têm sangue de barata, mas enfim. Quando escutei isso, contei pra ele a história de que já fui poeta e, inclusive, havia escrito um belo poema, além de três ou quatro bem bons também. Ele duvidou. Recitei o poema, pois sei de cabeça, e então ele disse que não achou isso tudo. Foi um choque. Comecei a listar todas as pessoas que tinham gostado. Até o Juca Kfouri gostou, eu disse. E ele respondeu que o Juca Kfouri não entende nem de futebol, quem dirá de literatura. Na opinião dele, ninguém entende nada de literatura.

Preciso falar mais alguma coisa?

7 comentários:

jean mafra em minúsculas disse...

segunda segunda consecutiva com texto fodão. vou dizer: ri alto. digo mais: se na semana que vem rolar algo no mesmo nível, sei não, victor, melhor parar!

mire-se no exemplo do poeta que foste.

Victor da Rosa disse...

obrigado, querido. ah, verdade, minha meta é sempre parar... e parabéns pela filhinha nova!

Anônimo disse...

Rosa,

E os poetas sem poemas, e os poetas e poemas anônimos!? Parabéns pelo texto.

Forte abraço, de um velho amigo.

Victor da Rosa disse...

Os poetas sem poemas são os mais admiráveis. Sobre eles, por isso, não há nada o que dizer. Outro abraço!

Pádua Fernandes disse...

Caro Victor da Rosa,

a frase sobre os poetas, na verdade, é do João do Rio, de "A alma encantadora das ruas": http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2011/03/ha-mais-poetas-que-homens-e-o-fascinio.html

Abraços,
Pádua

Flávia Péret disse...

oi, victor da rosa
você é uma peça de poeta.
adorei o texto!

Victor da Rosa disse...

Querida, obrigado; e que bom vê-la por aqui!