25.6.12

Taliesyn, in memoriam


Por Victor da Rosa
crônica publicada no Diário Catarinense

| foto de Gabriel P. Knoll |

Faz tempo que não vou ao Taliesyn; e pelo jeito não vou nunca mais. Há umas semanas li em algum lugar que o bar estava mal das pernas. Dias depois, passei pela frente do Taliesyn e deu pra ver que tinha mais gente lá do que na Igreja Universal em dia de culto, então imaginei que as coisas estavam melhorando. Mas não. Era só aquele último sopro de vida que dizem ocorrer nos defuntos momentos antes da partida definitiva. Na última sexta-feira, na coluna do Marcos Espíndola, soube que o bar estava fechando definitivamente.

Para quem não sabe, o Taliesyn era um desses bares ruins que a gente adora. Ou seja, é ruim, mas é bom. A gente adora, mas acaba indo pouco. É o último bar de todos os estabelecimentos comerciais dos oito principais planetas do sistema solar que não aceitava cartão de crédito, quando até carrinho de picolé já aceita. O Taliesyn não era apenas um bar; era também uma verdadeira resistência contra o capitalismo. Em tempo, o termo Taliesyn, antes de aparecer no título de um álbum da banda Deep Purple, já significava “fonte radiosa”.

O bar era uma espécie de boteco sujo melhorado, e isso não quer dizer que os copos eram limpos. Aliás, considero equivocadas as pessoas que freqüentam boteco e reclamam de copo sujo. A expressão “boteco-copo-sujo” é uma realidade e jamais pode ser tratada como uma metáfora. O Taliesyn era legal, aliás, porque ali não havia espaço para as metáforas. Por isso, os freqüentadores um pouco mais frescos do bar, entre os quais se inclui este cronista que vos fala, costumavam pedir cerveja long neck. Fui aconselhado a pedir lonk neck no Taliesyn, inclusive, pelo próprio dono do bar. Quer copo limpo? Traz de casa. Ou então, sei lá, vai pro 1007. No cardápio do bar, também constavam os itens 1) azeitona e 2) amendoim. 

Faz meses que não vou ao Taliesyn, como disse, mas já fui muito. Uma vez levei um amigo que estava vestido de terno e gravata, seu uniforme de trabalho, e um dos sócios veio perguntar, supostamente preocupado, se ele era fiscal da Prefeitura. Teve outra vez que fui barrado na entrada porque o bar já estava lotado. E teve outra ainda em que passei a noite inteira lá dentro sem aparecer uma viva alma. De resto, o bar não costumava acender as luzes às 2h da manhã pra mandar os bêbados pra casa, procedimento comum em outros lugares da cidade.

Até hoje desconfio que o bar foi aberto, há uns cinco anos, pelo líder de uma banda de rock que resolveu abrir o bar justamente porque a banda não tinha onde tocar. Uma espécie de gênese que repetiria o pecado original. “Já que nenhum bar chama a gente, vamos abrir o próprio”, teria pensado o líder da banda. Pois além de não aceitar cartão de crédito, o bar também oferecia, no bom sentido da expressão, música ruim de qualidade. Aliás, eu só aceito ouvir música ao vivo em bar se a música for ruim. Música boa eu ouço no teatro. Às vezes você pedia uma cerveja e a música parava na metade, porque era o guitarrista que alcançava a garrafa pra você.

















O Taliesyn era um lugar onde você podia fazer qualquer coisa, embora pouca coisa fosse recomendável. Não era um lugar exatamente pra dançar, por exemplo, mas você podia. Também era possível assistir futebol enquanto outras pessoas dançavam, pois tinha uma televisão inteiramente dedicada ao esporte bretão. Você podia também ficar escorado no balcão bebendo durante cinco horas enquanto os outros dançavam e assistiam futebol, como fazia um dos sócios, Johnny Hell, que não tinha jeito de quem gostava de dançar. Enfim, era um bar onde todos eram felizes e mal atendidos, sem distinção, como acontece na nossa própria casa.

5 comentários:

Gabriel P. Knoll disse...

Pô, Vitinho. Eu faria gosto de ver o crédito da foto lá de cima, né? HAHhaa É minha... aquela é minha.

boa! Taliesyn foi tarde, na verdade. :D

Victor da Rosa disse...

ah, é mesmo? ficou legal a foto

Gabriel P. Knoll disse...

És um amor.. Valeu, nego! :D

Alessandra Knoll Pereira disse...

Gostei da idéia de que quem resolveu abrir o bar foi um guitarrista frustado sem local pra tocar. Tem coisas assim estúpidas que fazem um sentido danado e então a gente se assusta em como a vida é mais intruncada que novela da globo!

Laís Sottili disse...

Ao ler o jornal, eis que vejo sua crônica, broto. Pensei igual a você, também achei que tinha se recuperado, é uma pena, adorava aquele amendoim com pimenta calabresa. :D