16.7.12

Da dificuldade de passar uma camisa

Por Victor da Rosa
crônica publicada no Diário Catarinense



Depois que nós, jovens mancebos que nunca fritamos um ovo, resolvemos abrir mão do conforto da casa dos pais para seguir o próprio destino, decisão que costumamos adiar com a persistência e a certeza de um número, um novo período da nossa vida começa; é o momento em que temos que aprender a passar a própria camisa. Sua mãe vai insistir para que você leve suas roupas sujas todo domingo pra ela, mas isso é uma técnica pra mantê-lo sob controle. Melhor não cair nessa.

Claro que a primeira providência depois que vamos morar sozinhos é buscar pelas redondezas alguma lavanderia que tire este peso de nossa existência, mas – não tem jeito – chega um momento em que a vida te pega, literalmente, com as calças na mão. É sábado, 21h, você tem um encontro cheio de expectativas com uma estudante de moda, você comprou uma camisa nova na Zara e quando chega em casa você percebe que falta aquela última passada para ficar nos trinques. Vai ter que se virar.

Neste caso, há três opções: 1) conseguir um ferro emprestado com algum amigo que mora no bairro; 2) conseguir um ferro emprestado com algum vizinho; e 3) sair com a camisa amassada mesmo. A estas alturas, por motivos óbvios, já não se considera mais a opção 4) ir ao encontro com a estudante de moda vestindo outra camisa, afinal você tem várias. Não, você quer aquela, pois você comprou uma camisa nova e quer usá-la. Na verdade, não tem nada a ver com impressionar a estudante de moda. Podia ser até um encontro, por exemplo, com a sua avó. Você simplesmente quer usar a camisa que comprou. Você precisa.

Pra encurtar a história, vamos imaginar que o ferro de passar roupa agora está em suas mãos. Tem um design bem moderno, parece uma pequena nave espacial prestes a alçar vôo, igual aquela música do Toquinho – design que a princípio intimida um pouco – e também esguicha aguinha quando você aperta o botão azul. Ou seja, você olha o ferro de passar como se contemplasse um troféu. Tudo resolvido? Não. Primeiro, sua camisa continua com a aparência de que saiu da boca da vaca; segundo, você não tem uma tábua de passar.

Como se passa uma camisa? Por onde começa? Você domina os elementos da tabela periódica, foi campeão de xadrez na escola durante o período do ginásio, leu quase toda a obra de Machado de Assis e diz com os olhos fechados a escalação do Avaí de 1997, ano em que Jacaré foi o grande ídolo da torcida, mas você não tem a mínima ideia sobre como passar uma camisa. Neste momento, ao pensar em tudo isso, você acaba se irritando um pouco, telefona pra sua mãe, se arrepende, pois agora é um homem independente, você é um homem, desliga o telefone no segundo toque, pensa um pouco mais, você está em dúvida, liga outra vez e então ela diz que vai até sua casa pra passar sua camisa.

– Não, mãe! Quero aprender como se faz! – e em pouco tempo vocês estão discutindo sobre coisas importantes da vida.

Na falta de uma tábua de passar roupa, você pode, com o auxílio de uma toalha, após estendê-la direitinho, usar a mesa da cozinha, mas você lembra a quantidade de coisa que tem em cima dela; copo sujo, farelo de pão, garrafa de cerveja vazia. Você esconde isso da sua mãe. Melhor passar na cama. Estende a toalha na cama. Tem que arrastar a cama porque o fio não vai chegar. Tem fio de extensão? Não tem. A camisa precisa ficar boa. Você pode.

Na hora de passar faz assim: começa sempre pela gola, depois desce pras mangas e dobra direitinho na costura pra não ficar um segundo vinco – o que é isso, vinco? Você olha a janela por dois segundos, respira, lembra que a China está fabricando uma geração inteira de filhos únicos, e volta a passar sua camisa. O punho você não passa fechado, tem que abrir. Toma cuidado com o botão. Não precisa passar o botão! Você passa o botão rodeando ele. Mais uns acertos e está pronta a camisa. O resultado nunca fica muito bom, mas tudo bem. Agora você é um homem.

Um comentário:

Anônimo disse...

Cadê você?
Estou ficando preocupada...