2.7.12

Quadrilha relida


por Victor da Rosa
crônica publicada no Diário Catarinense


















Helena é uma dessas garotas estudiosas do interior que passam no vestibular da UFSC com 17 anos de idade e pouquíssima experiência; mas quando chegam a Florianópolis acabam soltando a franga. É clássico. Soltar a franga, no caso, significa: 1) terminar com o namorado que ficou no interior e que não teve competência suficiente pra passar no vestibular também; e 2) fazer logo amizade com a colega de curso mais descolada. Foi assim que Helena conheceu a Ritinha.

Ritinha, natural de Florianópolis, bissexual desde os 16, agora tem 23 anos, é sustentada pelo avô e está no terceiro curso diferente da UFSC, mas nunca se formou em algum. É uma especialista em vestibulares e também na prática de sedução, daí o diminutivo em seu nome. Cursou um ano de Direito pra fazer a felicidade do avô, mas desistiu; depois começou a fazer Psicologia pra entender a si própria, mas também desistiu (tanto do curso quanto de entender a si própria); e agora Ritinha passou pra Letras, que considera “mais tranqs de levar”. Foi quando conheceu Helena.

Na primeira vez que Helena saiu com Ritinha, no Blues Velvet, presenciou a nova amiga dando um beijo triplo em outros dois rapazes; na segunda vez, foi Helena quem participou do beijo triplo com os novos amigos de Ritinha; e na terceira vez, sempre no Blues Velvet, que é onde rolam os melhores beijos triplos da cidade, as duas ficaram. Então Helena acordou no outro dia com saudades do namorado do interior, além de uma puta ressaca, telefonou para o celular da amiga e disse que aquilo tinha que acabar ali. Ritinha respondeu que tudo bem, não se importava, mas aos poucos foi se afastando de Helena. Que pena.

A história, como disse algum filósofo que Helena não lembrava o nome no momento em que encontrou Renato, se repete primeiro como tragédia, e depois como farsa... Pois Renato é justamente um dos rapazes que participou do beijo triplo uma semana antes; o outro se chama Rogério. Helena encontrou os rapazes na Célula Cultural, onde não se realizam beijos triplos, só beijos duplos. Renato faz yoga e está cursando o último ano de Cinema na UFSC. A primeira coisa que ele falou pra Helena é que seu TCC estava atrasado, mas a garota não se importou. Os dois ficaram.

 Foi nesta mesma noite que Helena bebeu tequila pela primeira vez. E pela segunda vez também, pois ela gostou e quis repetir a dose. Na terceira tequila já estava bem louca. Acabou dando uns beijos também em Rogério, o melhor amigo de Renato, e ficou também sem a carona de volta pra casa, pois os dois rapazes acabaram discutindo por causa de Helena e Renato, o dono do carro, se sentindo traído, foi embora sozinho. Que rolo, hein? Helena não quis falar com Rogério depois, que no fim das contas acabou dando razão ao amigo.

Não há notícias de como Helena conseguiu voltar pra sua casa neste dia. Provavelmente pagando R$30 de táxi. Juntando com mais R$30 das tequilas, aquilo era um verdadeiro rombo no orçamento. Mas o pior rombo ainda estava por vir. Os três nem tinham levantado da cama – acordaram por volta das 11h30m – quando as fotos da noite anterior já estavam publicadas no Facebook, todas em seus perfis, marcadas com seus nomes. Em uma delas, Helena estava com um copo de tequila na mão, provavelmente o terceiro, e os dois rapazes já lhe cortejavam, digamos, embora não fosse bem assim. Enfim.

Ritinha, que na verdade era ex de Renato, tinha tomado um ácido na noite anterior; por isso ainda estava acordada, às 7h da manhã, quando viu a foto e excluiu os três do seu Facebook. O ex-namorado de Helena, o rapaz do interior, que acordava cedo todos os dias, também acabou excluindo a garota, por quem ainda era apaixonado. Renato, que se sentia traído, também excluiu Helena, antes mesmo de dormir. Em resumo, Helena foi dormir com 567 amigos e acordou com 564. Perdeu um amigo em cada tequila que bebeu.

(a história continua durante mais uns quatro anos)

3 comentários:

Taise disse...

Essa Helena sou eu e você trocou o nome para me preservar..

Anônimo disse...

Victor você é ótimo! Hoje li "Em nome do amor" e vim aqui correndo pra ver se já estava no blog. Vou tentar pegar no DC virtual e encaminhar junto com esta "quadrilha relida" Teu texto é uma delícia!
Fátima de Barreto Michels -

leila disse...

Muito bom isso!! hehehe