27.8.12

Nelson Rodrigues com final feliz

Por Victor da Rosa
para Diário Catarinense

[ foto de Cristiano Prim ]

Neste caso, o melhor é começar pelo fim. Em Anti-Nelson Rodrigues, uma de suas últimas peças, escrita em 1973 e encenada pela primeira vez no ano seguinte, no coração da ditadura militar brasileira, o final é feliz. Diferente de outras peças do autor, em que o final sempre nos reserva um tiro ou um chifre, os conflitos agora são resolvidos pela realização do amor e de uma cerimônia feliz de casamento. Seria um Nelson Rodrigues mais otimista ou, por outro lado, mais irônico, já que a negativa do título parece nos dizer que nada daquilo que a última cena apresenta, a rigor, diz respeito à vida como ela é?

Foi este o texto, à sua maneira marginal dentro de toda a obra de Nelson, que dois grupos catarinenses, (E)xperiência Subterrânea e Dearaquecia, em parceria com o Teatro que Roda, de Goiás, e sob direção geral de André Carreira, levaram aos palcos de Florianópolis na semana passada. Contemplado por um edital da Funarte em comemoração aos 100 anos de Nelson, que premiou 17 montagens de textos do dramaturgo brasileiro em todo o país, a peça, depois de estrear no Rio de Janeiro, realizou uma breve temporada em Florianópolis, que se lamenta apenas ter sido tão breve.

A proposta de montagem, no decorrer da peça, vai explicitando a maneira inteligente como o próprio grupo concebe o texto de Nelson: uma proposta televisiva. No ano de 1973, conforme nos dizem as notícias, Nelson Rodrigues já estava na televisão – desde a década de 60 já havia telenovelas inspiradas em suas peças – mas, sobretudo, a televisão também estava nele. Há momentos da montagem de Anti-Nelson Rodrigues em que as cenas são projetadas, sempre em branco e preto, com encenação estereotipada, simulando justamente as primeiras telenovelas, como acontece com a cena final, a mais importante desse texto. A própria imagem de Nelson, também um personagem em sua própria peça, além de algumas de suas frases, aparece projetada.

O ponto frágil da peça está na irregularidade de algumas atuações, que ainda parecem sentir a insegurança das primeiras apresentações. Com uma proposta de montagem ágil, mudanças rápidas de cena, facilitadas justamente pela distribuição dos atores fora do palco italiano, assim como os diálogos, deliberadamente superficiais, fica a impressão de que parte dos atores não consegue imprimir a agilidade que a peça promete e mesmo exige. Vez ou outra, os atores nos lembram de que estamos em uma peça teatral, no mal sentido que isso pode ter. Depois, um personagem não deveria, por exemplo, cantar a secretária com a mesma emoção com que discute com a mãe. Há momentos em que, longe de comprometer o espetáculo, algumas atuações impedem a peça de brilhar.

[ foto de Cristiano Prim ]

As qualidades, no entanto, são mais numerosas que os reparos. O figurino, responsável inclusive pela ambientação do enredo na década de 70, já que o cenário é tão minimalista, pareceu-me impecável, assim como a música, realizada ao vivo. O modo como a peça se instalou no teatro também tem certo interesse. Além do palco, que foi propositadamente reduzido à boca de cena, outros espaços são usados talvez com o objetivo de que o público se sinta imerso em um grande casarão, com os atores usando bastante os corredores laterais e mesmo as poltronas da plateia, embora interagindo pouquíssimo com o público. Aliás, a peça é iniciada ainda na rua, depois que um lindo Fusca preto deixa o primeiro casal da peça, Tereza e Gastão, que saem do carro batendo boca entre as pessoas da plateia. “Você está bêbado e os vizinhos, como sempre, estão ouvindo nossas discussões”, diz Tereza.

Em outras palavras, se a peça termina com um casamento feliz, começa com um casamento falido, hipótese confirmada durante todas as cenas em que Tereza e Gastão reaparecem. Depois, os personagens e conflitos continuam sendo tipicamente rodrigueanos: o pai moralista, a empregada intrometida, o malandro que não quer nada com a hora do Brasil, a suburbana gostosa e incorruptível – salvo engano – e principalmente o poder do dinheiro atravessando todas as relações. O que nos faz pensar que, virando a peça de trás pra frente – começando pelo fim, terminando pelo começo – a montagem nos mostra que Nelson nem parece tão otimista assim.

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Um comentário:

Lengo D'Noronha disse...

Não vi a peça, infelizmente, mas foi feliz em sua crítica.