20.8.12

O falecido


Por Victor da Rosa
publicado no Diário Catarinense




Se Nelson Rodrigues estivesse vivo – o que sempre foi algo impossível, já que fumava feito um condenado e jamais cuidou da saúde – faria 100 anos na próxima quinta-feira, dia 23 de agosto. Como os cadernos de cultura de todo país são uma mistura inusitada de obituário com festa de aniversário, celebração ao mesmo tempo simpática e sombria, para não dizer previsível, então também devo acender uma vela para lembrar o nome deste defunto autor, pois não há motivo para ter medo dos mortos e muito menos da previsibilidade.

Antes, porém, já que o assunto está pesado, gostaria de lembrar um fato inusitado, que ficou gravado na minha memória desde que terminei de ler O Anjo Pornográfico, excelente biografia de Nelson escrita por Ruy Castro, recomendada a todos aqueles que gostam de rir da tragédia alheia. Apesar de entender de futebol, nos diz o biógrafo, Nelson nunca foi bom nos palpites, atribuindo sempre seu fracasso ao Sobrenatural de Almeida. Jogou na Loteria Esportiva durante dez anos e dificilmente fazia uma pontuação razoável. No dia em que veio a falecer, porém, acertou os 13 pontos desejados. Quando saiu o resultado, no fim de tarde de domingo, Nelson já tinha partido desta pra melhor. Morreu de manhã cedo. Uma ironia tipicamente rodrigueana.

Os livros de Nelson Rodrigues, tanto seus romances como as peças teatrais e até mesmo as crônicas, assim como a sua biografia, também fazem a alegria de quem se diverte com a miséria dos outros. Afinal, Nelson iniciou sua oficina literária nas páginas policiais do jornal carioca A Manhã, quando nem buço tinha, pois mal havia completado os 13 anos de idade. Aos 17, assistiu o próprio irmão sendo assassinado por uma mulher ofendida em plena redação do jornal, com um tiro. Antes dos 18, ainda, quem morreu foi o pai, desta vez de desgosto. Depois, nosso ilustre aniversariante passou fome durante bons meses. Enfim, não é à toa que Nelson Rodrigues ficou como ficou.

Durante a última semana, como se fizesse umas orações ao Nelson antes de dormir, aproveitei o mau momento da novela e passei as noites lendo “A vida como ela é”, uma singela homenagem ao mestre. “Duas mãos postas são sempre tocantes, ainda que rezem pelo vampiro de Dusseldorf”, disse uma vez o escritor. As mais de 500 páginas do livro, que saiu em 2011 por uma edição de bolso da Saraiva – em uma versão muito baratinha, portanto – não devem assustar os leitores mais preguiçosos, aqueles que não gostam de livros muito extensos; afinal, ninguém precisa ler o livro inteiro, visto que as crônicas, além do mais, são todas mais ou menos iguais. Além de dar boas risadas, o leitor terá uma semana de sonos intranqüilos.

e fato, mesmo sabendo que as crônicas são todas mais ou menos iguais, é difícil parar de ler. Na verdade, elas não são exatamente iguais. Ou melhor, são iguais, mas diferentes. Em quase todas as crônicas, por exemplo, alguém se dá mal. “Na vida”, ensinou Nelson Rodrigues, “o importante é fracassar”. Por sua vez, as tragédias quase sempre giram em torno do matrimônio. Das duas, uma: ou a pessoa morre ou leva um chifre. Nelson não hesita quando o assunto é matar seus personagens. Uma frase já é suficiente para, sem maiores explicações, às vezes em uma oração subordinada, dar fim a um miserável.

Mas há também, além de sangue, algumas lições de vida que se pode tirar da leitura de “A vida como ela é”. Nelson Rodrigues, que jamais assume um ponto de vista nestas crônicas, se limitando a expor as situações da maneira mais neutra, de vez em quando deixa escapar algumas de suas crenças, geralmente pelo pensamento de algum personagem cretino. Aos homens, por exemplo, Nelson parece sugerir que nunca deixem as próprias mulheres à mercê dos amigos. Em suas crônicas, muito chifre começa em um jantar de casais. A lição para as mulheres, por outro lado, é melhor não revelar aqui, por consideração aos rapazes ensimesmados que leem esta coluna.

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Um comentário:

Felipe disse...

e como parar de ler depois daquele acachapante primeiro parágrafo? um baita! parabéns!