6.8.12

Roubar obras de arte


Por Victor da Rosa
publicado no Diário Catarinense




No começo de 1994, durante as Olimpíadas da Noruega, dois homens roubaram O Grito, pintura de Edvard Munch, uma das grandes obras de arte do século XX, como se roubassem uma carteira de cigarros no Supermercado Rosa.

Às 6h30m da manhã – exatamente 6h29m, segundo indicou mais tarde o sistema de segurança – os homens realizaram todo o procedimento: 1) estacionaram o carro (roubado) diante da Galera Nacional da Noruega; 2) cruzaram a neve às pressas; 3) pegaram a escada que já haviam deixado ali; 4) apoiaram a escada na parede dos fundos; 5) um dos homens subiu a escada e quebrou a janela com um martelinho vagabundo; 6) o mesmo homem escolheu O Grito no meio de outras 55 pinturas de Munch; 7) e depois fez escorregar a pintura na escada até as mãos de seu colega como se aquilo fosse uma grande brincadeira; etc. Aliás, ainda deu tempo de cair da escada na primeira tentava de subida e também de deixar um bilhetinho pendurado no arame onde estava a pintura: “Muito obrigado pela segurança precária.”

O que faziam os seguranças no momento do roubo? Jogavam truco? E o alarme, não disparou? O que os dois malucos fizeram com a pintura depois? O que diabos afinal se faz com uma pintura famosa depois de roubá-la? Conta a novidade aos amigos e às mulheres dos amigos? Disponibiliza no mercado livre? Hein?

Estas e outras perguntas muito mais importantes são feitas pelo jornalista americano Edward Dolnick no livro O Grito Roubado e outras histórias, grande reportagem sobre crimes de arte, talvez a melhor já publicada no Brasil. Como se pode imaginar pelo título, o livro trata principalmente do roubo da obra-prima de Munch, mas também recorre a outros crimes memoráveis, como a rapa da Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, feita por um funcionário do Louvre em 1911. Neste caso, a obra foi recuperada dois anos depois e este senhor do qual não recordo a alcunha pegou sete meses de cadeia, alguns meses menos do que o ladrão de cigarros pegaria.

Para escrever seu livro, Dolnick entrevistou Charley Hill, agente da Scotland Yard que acabou se especializando em crimes de arte e que, sendo inglês, teve que aprender a falar com sotaque americano para se passar, por exemplo, por um magnata de Nova York interessado em uma pintura roubada. Além disso, naturalmente, Hill teve também que estudar arte, pelo menos o suficiente para enrolar criminosos durante um jantar de negócios. Para recuperar O Grito, Hill se passou por um representante do Museu Getty, instituição do sul da Califórnia escolhida pelo agente por um motivo apenas: trata-se de um dos museus mais ricos do mundo, capaz de deixar até o Eike Batista com água na boca.

A reportagem de Dolnick é escrita às vezes como se o autor narrasse um romance policial, mas não há qualquer afetação no estilo, como acontece em outros livros do gênero. Outro mérito do livro é a riqueza de informações curiosas. Com a leitura, ficamos sabendo que os crimes de arte são menores apenas do que tráfico de drogas e de armas; e que, a cada dez pinturas roubadas, nove desaparecem para sempre, formando uma espécie de Museu Invisível que rivalizaria com qualquer grande coleção do mundo.

Talvez a imagem que melhor defina o livro de Dolnick seja a de uma pintura de valor inestimável enrolada em um pano de chão e escondida no porta-malas de um Opala velho; afinal, criminosos não costumam fazer cursinhos de preservação. No caso de Munch, estamos falando de uma cifra que representa, por exemplo, 25 mansões em Jurerê Internacional, mas há números ainda maiores. Seja como for, o caso de Munch não é objeto de especial interesse por tratar-se do quadro mais caro, e sim, entre outros motivos, por ter sido recuperado, e aqui vai de graça a revelação das últimas páginas do livro. Seja como for, nessa história o mais importante não é o fim e nem o começo, e sim os meios.

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