13.8.12

Tentativa e ERRO

Por Victor da Rosa
para Diário Catarinense


Quem passar pelo calçadão da Felipe Schmidt por estes dias, em torno das 18h30m, deverá ver com os próprios olhos uma cena de cinema. Além de curiosos já avisados e eventuais transeuntes – alguns dos quais ensandecidos, como se pôde averiguar –, estarão no local também quatro figuras vestidas de preto, dois homens e duas mulheres, apostando as próprias calças em um jogo em que não há qualquer vencedor. Digo “apostando as próprias calças” não porque sou um poeta e gosto de inventar metáforas, e sim porque é exatamente isto que acontece. Se as mulheres terminam a peça apenas de calcinha e sutiã, os homens chegam a ficar ali durante alguns momentos com o negócio balançando como se fosse o ponteiro de uma roleta. Neste momento, o rapaz que vende amendoim grita:

– Meu nome é Zé Pequeno!

Trata-se da cena final de Hasard – do francês: azar, acaso – nova peça do conhecido grupo de teatro ERRO Grupo. Grupo conhecido, aliás, não apenas por aqueles que acompanham teatro na cidade, freqüentam salões e vernissages, mas também por quem vive nas redondezas do centro histórico de Florianópolis, desde os jogadores de baralho e dominó até os clientes do Ponto Frio. Isso porque a grande maioria das peças do grupo – como Enfim, um Líder e Desvio – é realizada naquela espécie de losango formado pelos quatro principais calçadões. Por exemplo, quando Hasard começou, às 17h em ponto, o tiozinho do baralho resmungou entre os dentes, plenamente informado da situação, mas conformado e aflito, enquanto comprava um 3 de paus:

 – São aqueles malucos do teatro outra vez...

Mas do que trata Hasard? A princípio, para quem está mais ou menos informado, quem leu o release na internet ou curtiu a página do grupo no facebook, já vai sabendo que se trata de uma reflexão – talvez melhor, de uma experiência – sobre jogo, aposta e dinheiro. A peça, digamos, é dividida em quatro núcleos (os quatro naipes do baralho), distribuídos em quatro pontos diferentes do centro, sendo que os núcleos convivem de vez em quando, mas cada qual com seus jogos específicos. Há diferenças entre os núcleos, que são afinal diferentes maneiras de representar o dinheiro. Em um núcleo, as cenas acontecem em torno do arrombamento de um cofre; em outro, há um jogo de baralho com participação do público; etc.

Em Hasard, um pouco diferente das peças anteriores do grupo, o público atua junto. Na verdade, a pesquisa sobre jogos e interação sempre existiu na trajetória do ERRO, ou seja, a divisão entre atores e espectadores sempre esteve em crise, mas nunca o público, em minha opinião, foi incluído de maneira tão determinante, cuidadosa e inteligente. Sobretudo no núcleo da Conselheiro Mafra, onde o jogo gira em torno da gravação de cenas para um programa televisivo – a câmera funciona, a bateria é duradoura e muitas vezes quem maneja a câmera é alguém da platéia – o público tem participação ativa. Pelo que pude notar, as pessoas participam porque querem participar, porque existe espaço pra isso e, sobretudo, porque têm coisas divertidas a fazer.

– Isto aqui o que é? Televisão, Rede Globo? É alguma novela?

Tudo isso cria situações divertidas, inesperadas. Um rapaz que entrega propaganda de casas de massagem no meio da peça passa a atuar na medida em que você, pelo menos por um momento, não sabe se ele é ator também. Quando alguém canta uma canção do Raça Negra no microfone do núcleo da Deodoro – núcleo que parece mais um bingo de quermesse – você também não sabe mais quem é quem. De outra maneira, você próprio passa a ser ator sem se dar conta. Aos poucos, na verdade, você esquece que está assistindo a uma peça de teatro. No fim das contas, Hasard deve ser isso também, uma aposta além da arte: erros, desvios de roteiro, perdas de controle, acaso.

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