24.9.12

Diário de um motorista principiante

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Por Victor da Rosa
crônica publicada no Diário Catarinense


Quando fiz 18 anos, por questão de princípios, não quis tirar a carteira de habilitação. Eu era um jovem que discordava radicalmente dos rumos individualistas que a humanidade tinha tomado e não queria fazer parte dessa sujeira. Por ser tão consciente, passei mais de dez anos andando de ônibus – experiência que fez de mim, desculpe a falta de modéstia, um verdadeiro especialista em ganhar carona dos amigos. As pessoas não sabem, mas existe toda uma estratégia de sedução pra isso.

Outra coisa é que, andando tanto de ônibus, tive o privilégio de compreender como realmente funcionou o transporte público de Florianópolis nos últimos oito anos, experiência que me preparou para enfrentar os mais difíceis perrengues da vida. E olha, vou dizer: é muito pior do que os políticos imaginam! Costumo dizer em minhas palestras que andar de ônibus em Florianópolis é uma prova de superação. Você quer um desafio na vida? Vá de ônibus do Estreito até o Rio Vermelho às 19h de uma sexta-feira. Mas não quero mais lembrar destes assuntos. Agora só quero saber de coisas positivas. Esta história tem final feliz.

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Dirigi um automóvel pela primeira vez quando tinha uns 14 ou 15 anos. Eu era um real infrator. Lembro que meu pai me levou para treinar no campinho de várzea do bairro. Usei as linhas laterais para fazer a baliza, as traves para as manobras e nem passei da segunda marcha. Cheguei a fazer o movimento de engatar a terceira, mas fui repreendido pelo meu pai, o que gerou uma breve discussão. Esta, aliás, foi a minha primeira discussão no trânsito. Meu pai tinha uma Brasília cinza, modelo 79, que era muito bem conservada. Ele dizia que não era um carro velho, e sim uma relíquia.

Antes dos 18 anos, ainda voltei a dirigir uma ou duas vezes a Brasília do meu pai, inclusive na BR-101. Dirigir na BR não tem tanta graça, pelo menos ao gosto de um principiante, que não pode, por exemplo, ultrapassar os caminhões. O motorista principiante deve ficar na pista da direita andando a 80km/h.

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Fui convencido a tirar carteira de habilitação há uns meses. Resisti durante quase dez anos. Um dia me perguntaram: como você fazia pra arrumar namoradas sem ter um carro? Ora, namorando com mulheres que dirigem.

No dia da inscrição na Auto Escola, tive que preencher um formulário afirmando que não sou débil mental, não fumo maconha e não bebo álcool excessivamente, dentre outras coisas. Perguntei: é pra ser sincero? A moça respondeu que sim e eu fui. Então ela voltou atrás, disse que eu poderia ter problemas com os psicólogos e me entregou um segundo formulário em branco. Depois, risquei uns tracinhos no papel em fileira e passei no teste psicológico! Isso me deu o direito de permanecer durante duas semanas dentro de uma sala escura assistindo vídeos de primeiros socorros com muito sangue, do qual tenho fobia, mesmo que o sangue seja falso, e vendo acidentes de automóveis no youtube.

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As aulas práticas até que foram legais. Fiz aula com um gaúcho meio piadista que dizia que Figueirense e Avaí não eram times de futebol. Como eu estava concentrado, não podia discutir muito. Ele também contava umas histórias de alunos que deixavam o carro morrer em descida de morro, mas acho que era mentira. Teve um aluno que foi tirar o cinto de segurança, acionou o botão errado e inclinou o banco pra trás. Fica até difícil pra imaginar. É daquelas cenas que, de tão absurdas, só podem ser verdadeiras.

Quando eu passava com o carro no buraco, ele me lembrava de que dirigir e jogar sinuca são coisas distintas. Uma vez eu confessei que estava um pouco inseguro e ele respondeu: mas, tchê, se você está inseguro, imagina eu! Eu nunca tinha pensado a coisa por esse ângulo. Então prometi que se eu passasse no teste definitivo, que é marcado para um mês e meio depois do término das aulas – provavelmente uma estratégia para que os alunos percam a prática – ele ganharia um engradado de cerveja. Passei, mas ainda estou devendo o engradado.

Um comentário:

yullivic disse...

pois eu qdo fiz auto-escola
sentia tesão qdo o instrutor
me apertava no cinto de
segurança mas fazia o zigue-
zague bem direitinho.
Tirei a carta e até hoje

kkkkk!!! muito boa e engraçada
a tua crônica da segunda