3.9.12

Ecce Mono

Por Victor da Rosa
crônica publicada no Diário Catarinense




O caso da senhora de Borja que tentou restaurar um retrato de Jesus Cristo e acabou lhe transformando naquela imagem definitivamente impossível de definir – algo entre um macaco deprimido e um urso de pelúcia encardido – só vem ilustrar uma das grandes verdades sobre a arte do século que passou: as grandes obras de arte são involuntárias. Isso sempre me pareceu uma verdade muito razoável, como aliás devem ser todas as verdades, embora seja também algo um pouco inútil para se pensar: o artista jamais realiza uma obra prima sabendo que está realizando uma obra prima. Ele faz lá algo que acha muito bom, ou nem tanto, muitas vezes com técnica e estudo, mas nem sempre, e de repente saem por aí dizendo que se trata de uma obra prima. Depois fica sendo mesmo.

Foi o que aconteceu com Cecilia Giménez, a simpática senhora de 81 anos que causou grande furor e estridentes gargalhadas – principalmente estridentes gargalhadas – animando a vida daqueles que, assim como nós, precisam de poucas coisas para ser feliz. Sim, Cecilia Giménez transformou a fraca pintura do discretíssimo artista plástico Elías García Martínez (1858-1934), que só veio alcançar alguma fama 80 anos depois de sua morte, em uma obra prima. Afinal, uma obra prima poderia ser definida como um objeto que necessita da proteção de um guarda especializado e também de um cordão de isolamento para que o público, oriundo de diferentes lugares do planeta, não tenha condições de se aproximar. É isso que acontece com os quadros de Van Gogh, por exemplo, e com todas as outras obras primas, inclusive com a Ecce Mono, o título provisório da nova obra de Cecilia Giménez.

No entanto, acabamos de ler a notícia de que uma série de especialistas em preservação do município de Borja discute a possibilidade de uma nova restauração, procedimento que tem como objetivo destruir a pintura de Cecilia Giménez, o que consideramos, e nem seria preciso salientar, fora de propósito. Há ainda outras duas possibilidades para o desfecho deste caso: colocar por cima de Ecce Mono um segundo quadro de Elías García Martínez, já que o suporte da pintura é a própria parede do santuário de Nossa Senhora da Misericórdia; ou deixar a pintura da maneira como ficou, hipótese menos ligada aos desígnios cristãos, porém mais coerente com a história da arte. Todas estas informações foram divulgadas no jornal El País da última segunda-feira, 27. Na semana que vem, será divulgada também a decisão definitiva. Todos estão muito apreensivos.

Diante de tamanho quiproquó, um grupo de amantes da arte da cidade de Madri resolveu redigir uma petição, encaminhada ao prefeito de Borja, solicitando a manutenção da nova versão da pintura no santuário, visto que a obra – traduzo – “supõe um inteligente reflexo da situação política e social do nosso tempo”. Segundo o texto de defesa, a obra de Cecília Giménez também realiza uma “sutil crítica das teorias criacionistas da Igreja, uma vez que a pintura questiona o surgimento de novos ídolos.” Os motivos da petição ainda incluem a defesa da street art, da terceira idade, além da estética vanguardista e da alegria de Jesus. Os moradores da própria cidade de Borja também manifestaram seu “mais absoluto apoio” à Cecilia Giménez, principalmente o dono da pastelaria do Mercado de San Miguel, que desde a última semana vem vendendo crepes com a imagem da obra.

* * *

[ clicando, aumenta ]

Nenhum comentário: