10.9.12

Três dentro, três fora

Por Victor da Rosa 
crônica publicada no Diário Catarinense



Se existe uma coisa que os gays sabem fazer muito bem, além de dar bafão no facebook e editar revistas de moda, é festa. Pode anotar. Festa com muito hetero não dá pé. Pessoal fica mais parado do que o Loco Abreu dentro da grande área esperando cruzamento, isso quando não está no departamento médico. Ou seja, aquela tristeza. Hetero também gosta muito de estudar os ambientes antes de agir, e aí quando viu já acabou, o que é muito diferente da atitude dos gays, que expressam seus desejos mais profundos já nos primeiros três minutos de contato, mantendo uma relação mais intensa com a vida e um clima de constante intimidade com os demais presentes. Enfim.

Depois deste preâmbulo, composto de opiniões corajosas e metáforas lamentáveis, passemos ao principal: a anedota, a confissão.

Eu era um jovem introspectivo e recém saído da adolescência quando tive a oportunidade de frequentar a parada gay de Florianópolis pela primeira vez. Foi um sufoco. Eu jogava futebol em um condomínio na Avenida Beira-Mar, todos os domingos. A pelada começava sempre às 19h, mas neste dia muita gente atrasou justamente por conta da parada. Se os atletas faltaram ao futebol pra saracutear na parada? Não, senhora. Nem é má ideia, mas o motivo foi outro. É que havia filas de carros pra todos os lados. Afinal, o negócio não se chama parada em vão. Aliás, a única coisa que fica parada ali é o trânsito, pois o resto é puro movimento.

Em resumo, eu e mais dois amigos conseguimos chegar no horário, mas teríamos que esperar um bocado. De modo que, do jeito que estávamos, com o traje mais apropriado para a ocasião – pois não há nada mais baitola do que um homem se arrumando pra jogar futebol com os amigos – fomos dar um passeio nas redondezas. Quando nos demos conta, e não sei dizer como, estávamos no meio do balacobaco. Ou seja, éramos três mancebos fantasiados de jogadores de futebol, personagem que aliás paira na imaginação homossexual desde a invenção do tiro de meta, no meio de milhares de veados muito animados. De um lado, as gazelas; do outro, os leões. Só que ao contrário.

Foi a gente colocar os pés na Beira-Mar e já veio uma biba toda assanhada, se insinuando:

– Hmmm, diz pra mulher que vai jogar futebol e vem pra parada, né? Já dei muito esse golpe, meu bem!

Enquanto tentávamos explicar o inexplicável, buscando deixar claro que não jogávamos naquele time, que respeitávamos a opção de cada um, que tudo aquilo não passava de um mal entendido, passaram umas drags em turma e uma delas gritou as seguintes palavras:

– Uuuuui, que delícia! Vamos fazer um três dentro, três fooraaa!

No final, mais à vontade, já estávamos nos apresentando como o ataque dos sonhos:

– Ronaldo, Ronaldinho e Ronaldão, muito prazer!

O Ronaldão, no caso, ficou sendo o mais machinho do grupo, que era um daqueles rapazes que leva a bola, escolhe os melhores jogadores pra jogar no próprio time, passa gel no cabelo, mas perde o jogo e acaba fazendo encrenca no final. Não lembro se eu era o Ronaldo ou o Ronaldinho, mas o nome, no fim das contas, nem fazia mais diferença. Foram uns 20 ou 30 minutos de muita alegria. Quando o Ronaldão já queria se jogar no trio elétrico, tivemos que voltar. E então voltamos para o futebol, mas lembro que não éramos mais os mesmos.

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