8.10.12

A seleção e o apagão

Por Victor da Rosa
crônica publicada no Diário Catarinense


Na semana passada, justamente a semana mais pobre do mês de todo trabalhador brasileiro, um amigo meu, Omar Piando, artista plástico com muito talento – ou seja, sem muito dinheiro – comprou uma camisa oficial da seleção argentina só pra secar o emprego do Mano Menezes no jogo de quarta. Não que o clássico das Américas fosse um jogo importante, mas era outra oportunidade para que Mano queimasse mais ainda o seu filme, que já está mais queimado do que bunda de gringa no verão. Nosso amigo comprou a camisa no crediário, sem entrada – 4 x de R$39,90 – e chamou meia dúzia de secadores pra apreciar a pelada em sua casa, dentre os quais estava incluído este cronista que vos fala.

 – Que cada mês do crediário seja um gol de los hermanos! – profetizou Omar, que torcia logo pela goleada.

Omar Piando é daqueles sujeitos que só defendem uma ideia quando a metade do país, pelo menos, já defendeu – é daí, aliás, que vem seu sobrenome. Pois agora, depois de convocar o Kaká e de perder pra todo mundo, ficou fácil vaiar Mano Menezes e dizer impropérios a seu respeito. O treinador começou recebendo vaia de bêbado e da turma do amendoim, então a vaia chegou nas arquibancadas cobertas, depois alcançou as sociais, o gandula e até mesmo o flanelinha, como se a vaia fosse uma frase da Clarice Lispector compartilhada no Facebook, enfim; o país inteiro, com exceção de Delúbio Soares e José Dirceu, não quer mais saber de Mano como treinador. Foi quando Omar aderiu à campanha. 

Talvez tenha dado azar esta coisa de comprar a camisa da seleção argentina no crediário, mas o fato é que o clássico das Américas não aconteceu por falta de luz, como todo mundo sabe. Alguém disse na televisão que “estas coisas acontecem”, mas eu não lembro da última vez que a Juliana Paes teve que exibir seus pecados ainda em horário nobre. Por outro lado, não faltou 1) comentaristas esotéricos dizendo que a falta de luz deve, sim, ser um sinal; 2) cabeleireiras sugerindo que a culpa do apagão foi do secador de cabelo do Neymar; 3) torcedores pessimistas perguntando se ainda existe luz no fim do túnel; 4) humoristas sem sono fazendo trocadilhos como “faltou luz em Resistência, na Argentina” e 5) gente vaiando o Mano mesmo assim.

Algo que me pareceu divertido foram os jogadores dando entrevista sobre a falta de luz com aquela mesma falta de naturalidade que eles falam quando o time perde, por exemplo. Os comentários de Arnaldo Cesar Coelho sobre qual deveria ser o procedimento da arbitragem, como se o pobre do árbitro pudesse fazer alguma coisa, também chamaram a atenção. E o Cleber Machado, ao lado do Casagrande, reafirmando a importância de fazer roda de bobo para que os jogadores pudessem se manter aquecidos? Legal também. Se houvesse um quarto comentarista, enfim, fechava jogo de dominó. Existe uma espécie de magia na televisão quando algo não sai conforme o combinado. A seleção, o apagão, dirá o poeta, uma rima, e não uma solução.

Quanto ao nosso amigo, o Omar Piando, ele até se divertiu com a história, mas ficou frustrado também. Omar sentia que alguma coisa extraordinária estava prestes a acontecer naquele estádio que, no fim das contas, era uma mistura de Engenhão com Renato Silveira, palco do saudoso Guarani da Palhoça. Afinal, não é todo dia que o hino brasileiro é cantado com acento portenho tão carregado. Mas não foi desta vez. Restou a Omar ouvir um tango argentino e pagar suas quatro prestações.

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