15.10.12

Da antipatia e outras formas de abuso

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Por Victor da Rosa
crônica publicada no Diário Catarinense



Há uma prática bastante recorrente nas relações humanas que, de tão cheia de nuances, continua sendo um enigma para os melhores especialistas no assunto; é quando você não vai com a cara de alguém. O enigma existe porque geralmente torna-se muito difícil, ou mesmo impossível, explicar os motivos daquela antipatia que, de repente, sem mais nem menos, você sente pelo outro. Por exemplo, a sua irmã de dezessete anos, que recentemente passou no vestibular, aparece com o novo namorado pra almoçar com a família e todo mundo gosta do sujeito, menos você.

– Mas por quê? – sua irmã pergunta no dia seguinte, toda querida.

– Ah, sei lá, ele tão... é muito... enfim, não fui com a cara, sabe? – e a justificativa, por mais que você procure no ar algo mais convincente, como se tentasse apanhar borboletas com a mão esquerda durante um vento sul, sempre acaba por aí.

Não ir com a cara de alguém é uma espécie de amor à primeira vista, só que ao contrário. É aquela primeira impressão negativa, de início bastante vaga, mas que tem de tudo para se tornar duradoura, mesmo que continue abraçada na falta de qualquer pressuposto racional. Você ainda não detesta o outro, mas em breve provavelmente vai detestar. Em 90% dos casos, segundo pesquisa realizada rapidamente aqui em casa durante o almoço, a antipatia termina naqueles duelos com armas brancas que se faziam no passado ou, em tempos mais atuais, em exclusão no Facebook.

No vocabulário eclesiástico, pra dizer a mesma coisa, só que em níveis celestiais, como se a vida dos anjos fosse paralela a nossa, existe a expressão “o santo não bateu”. Quer dizer a mesma coisa, mas neste caso a pessoa não se responsabiliza pela antipatia que sente em relação ao outro, preferindo colocar a culpa no pobre do santo, que na maioria das vezes não tem nada a ver com a história. E pegar abuso? Aí é diferente. Você vai com a cara da pessoa, mas passa a conviver tanto e a se irritar a tal ponto que, então, pega abuso. Em minha opinião, se não ir com a cara ainda é um processo reversível, pegar abuso, por sua vez, é fatal.

Além do namorado novo da irmã, as pessoas tendem a não ir com a cara também do colega mais inteligente da classe e dos seres humanos que são mais bonitos, ricos e fazem sucesso em geral. São clássicos. Nestes casos, porém, não ir com a cara é apenas um eufemismo – um atenuante – que tem como principal objetivo esconder os próprios pecados. Em outras palavras, a pessoa tem é inveja mesmo. Às vezes acontece também, como lembrou uma amiga, de você não ir com a cara do outro porque já percebeu que o outro não foi com a sua. Vence o mais rápido. É igual filme de faroeste. 

Afinal, só tem uma coisa que é pior do que não ir com a cara de alguém; é quando alguém não vai com a sua. E por mais que você trate com simpatia os desconhecidos, por mais que você sorria pra todos, se vista de maneira discreta e distribua presentes nas datas comemorativas, sempre terá alguém que acaba não indo com a sua cara. Como se faz pra ser amado por todos? O que se pode fazer nestas horas? Nada, ora. Desista de ser amado por todos. Estas situações são como aquelas em que o jogador de futebol quer explicar a goleada que o time acabou de sofrer: erramos nos detalhes. Quanto mais fala, pior é.

4 comentários:

Callas disse...

como eu fui com a sua cara e, pelos nossos encontros esporádicos, não corremos o risco de pegar abuso, posso dizer que simpatizei com a sua crônica.
eu só não vou sobreviver se você não publicar meu comentário. sinal de que você não foi com a minha cara. e mentiu.

Callas disse...

como eu fui com a sua cara e, por nossos esporádicos e singulares encontros, não corremos o risco de pegar abuso, posso dizer que simpatizei com sua crônica. só vou morrer mesmo se você não publicar meu comentário. sinal de que você não foi com a minha cara. e mentiu.

Victor da Rosa disse...

Publiquei até dois, querida Karen!

Anônimo disse...

Victor eu não sei o que seria das nossas caras se tivéssemos uma convivência amiúde mas uma coisa eu te garanto: Que crônica pra dar inveja em qualquer pessoinha metida a cronista, tipo eu, por exemplo... Fico muito irada que um menino tão moço saiba tanto da intimidade humana. Ahahahahah meudeuso vc foi perfeito. Até que não ia muito com a sua cara ahahahaha mas esta crônica está nota mil.Acho que até uns & outros (que têm lancha) aí da ilha vão passar a ter respeitar mais. Pôxa vc despe a alma de quem tem! Fatima/ Laguna