29.10.12

Diário de um motorista principiante - parte 2


Por Victor da Rosa
crônica publicada no Diário Catarinense


Passei no teste de habilitação e estou dirigindo bem. Não sou eu quem diz isso, e sim os meus caronas. Sei que faz parte da estratégia de sedução dos caronas aliciar suas vítimas, exagerar nos elogios, mas não tenho como discordar deles. Aliás, é preciso ter muita fibra pra discordar dos elogios quando eles são ditos pra você. Por isso foi inventada a falsa modéstia, que parece ser a negação do elogio, mas na verdade é um pedido de quero mais. Mas voltando: você sabe que está dirigindo bem quando seus caronas não ficam olhando o espelho retrovisor a cada 30 segundos ou quando não se penduram no puta-merda durante a travessia, por exemplo, do Morro da Lagoa.

No fim das contas, devido a uma espécie de culpa que tenho por ter abusado tanto da carona dos outros – foram quase dez anos vendo a paisagem através do ponto de vista mais privilegiado do carro: o banco de trás – passei a dar carona pra todo mundo. Quando estou saindo de uma festa, sou daqueles que ficam perguntando se a pessoa tem como voltar pra casa. Dia destes, depois de uma festa na ponta do Sambaqui, nestas de ficar perguntando, tive que levar a prima de um amigo no Kobrasol.

 * 

Um dilema: quando alguém rouba sua vaga no estacionamento, o que se deve fazer? Sair do carro e tirar satisfações? Seguir a vida e encontrar outra vaga? Esperar a pessoa dobrar a esquina e furar o pneu do carro dela? Fazer uma mandinga? Enfim, muitas coisas passam pela cabeça.

Minha sogra, no entanto, sempre opta pela primeira opção. Uma vez acompanhei um caso. Na verdade, quando o rapaz roubou sua vaga, ela deu uma buzinadinha, muito educadamente, mas foi solenemente ignorada. Então ela saiu do carro e perguntou, ainda educadamente, se o sujeito – era um carioca passando férias na ilha – não tinha percebido que vaga já tinha dono. Foi aí que o carioca, com sotaque de carioca, respondeu:

 – O mundo é dos espertos, minha senhora...

Não sei se foi pela petulância da resposta ou se foi por chamar minha sogra de senhora, coisa que ela está longe de ser, que fique registrado, mas sei que o rapaz ouviu meia dúzia de palavras mágicas que lhe convenceram imediatamente a voltar atrás.

 * 

Hoje fez um domingo de muito sol e eu resolvi realizar um sonho: dirigir na estrada de Moçambique e contemplar as mais belas árvores da ilha. Acho que são eucaliptos, mas não entendo nada de árvores. Só sei que aquelas são as mais bonitas.

Saí de casa logo depois do almoço. Fui pelo norte da ilha e peguei a estrada do Rio Vermelho – fiz o caminho mais longo, claro – até chegar ao local desejado. Um conselho que dou aos motoristas principiantes que usam iPhone é que nunca optem pela rota 2 do GPS. É treta. Além do mais, em uma ilha, você só precisa andar reto. Se estiver perdido, vai reto. Como a ilha é redonda, não tem como se perder. E foi assim que fiz pra chegar na estrada do Moçambique, onde há os mais belos eucaliptos da cidade. Sabe aqueles turistas que dirigem a 30km/h em via rápida com o braço apoiado na janela? Era eu olhando os eucaliptos.

Quando cheguei, no entanto, fiquei sem saber o que fazer. Agora eu tenho que voltar? Mas acabei de estacionar! Em minha opinião, a graça de passear de carro consiste em gastar a maior quantidade possível de gasolina, pois ficar lá morcegando dá um tédio danado. Quanto mais gasolina gasta, melhor o passeio. Tirei duas fotos, publiquei no Facebook e voltei.

Aí vem a parte boa: fila no morro da Barra da Lagoa. Tudo parado. Quase 10km de fila até a Avenida das Rendeiras. Aí pensei: bem, é a primeira fila da vida, vamos encarar. Tem uma hora em que você não aguenta mais ouvir as vozes das locutoras da Rádio Udesc. Moral da história: o que era uma bucólica tornou-se um poema bufo.

Nenhum comentário: