1.10.12

Pra que serve a propaganda eleitoral?

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por Victor da Rosa
crônica publicada no Diário Catarinense



Vamos imaginar que o período de propaganda eleitoral serve para auxiliar os eleitores na escolha de seus candidatos. É o que está escrito no site do Governo Federal. Trata-se de uma suposição, talvez uma fantasia, quem sabe um delírio, e não um fato, mas vamos aceitá-lo assim, enquanto fato. Apenas gostaria de lembrar que a propaganda eleitoral, em suas mais diversas formas de expressão – seja a carreata, a entrega de santinhos ou o horário televisivo – serve também para outros fins. E guardo comigo a convicção de que, aí sim, ela cumpre plenamente seu papel.

 Por exemplo, a propaganda eleitoral serve pra nos despertar do sono quando estamos dormindo além da hora. Afinal, todos já fomos acordados pelo carro de som de um candidato a vereador que toca uma versão de alguma marchinha de carnaval ou qualquer outra canção de caráter pitoresco, como é o caso de Haja Amor, aquela que Luiz Caldas imortalizou através dos seguintes versos: Eu queria ser uma abelha / pra pousar na tua flor. Aconteceu na semana passada com a minha tia Rosette Rosa, que por viver da pensão de seus ex-maridos – tudo que envolve minha tia é dito no plural – não precisa acordar muito cedo. O nome do candidato ela não lembra, mas devia ser alguma coisa que rime:

 – Agenor, Leonor, Alaor... Queria saber o nome do safado! – lamenta minha tia.

Rosette Rosa, aliás, ainda não sabe em quem vai votar, mas sabe em quem não vota de jeito nenhum. Por ter tempo de sobra na vida, minha tia desenvolveu um método de escolha por eliminação. Ela argumenta que se até pra escolher marido foi assim, por eliminação, por que não seria pra escolher político? Ou seja, Rosette vai fazendo uma lista negra de candidatos que 1) fazem propaganda com cavalete nos cruzamentos das ruas; 2) penduram santinhos no para-brisa de seu Corsa 98; 3) atrapalham o baile do Trintão pra dar discurso; 4) provocam congestionamento na Avenida Beira Mar durante os domingos; e 5) causam transtorno a seu sono.

Ela divulgou a lista em seu face – minha tia agora aderiu ao face – na semana passada. Já tem mais de cem nomes. Se demorasse mais umas três semanas para o dia das eleições, não sobraria ninguém. Ela pediu também que eu descobrisse o verdadeiro nome do Agenor, para que fosse incluído em sua lista, como se no site do Tribunal Eleitoral houvesse um dicionário de rimas. Minha tia se define politicamente como uma pessimista feliz.

– Tenho saudade de quando as eleições eram com cédula, pois assim a gente podia votar no Odair José, no Roberto Carlos, no Tupãzinho, enfim, em quem nossa imaginação permitisse! – diz Rosette, que já não tem mais 30 anos.

Além de provocar filas, fazer barulho de manhã cedo e sujar toda a cidade, o período das eleições também tem pelo menos duas serventias que, segundo minha tia, podem ser consideradas positivas: levar humor e entretenimento de qualidade para a televisão brasileira e, mais precisamente no dia das votações, reencontrar amigos de infância. É bonito. Pra quem mora em outro bairro ou até mesmo em outra cidade, por exemplo, tem a oportunidade de voltar ao colégio onde estudou, conversar com aquela pessoa que você sempre quis namorar na escola (e nunca te deu bola) e perceber que ela engordou.

Enfim, é por tudo isso que fica tão difícil definir nossos sentimentos quando mais uma eleição chega a seus dias derradeiros. Rosette, sempre mais convicta, acredita que eleição é igual visita de parente distante: uma alegria quando começa, outra alegria quando termina.

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