19.11.12

A verdade de cada um

Por Victor da Rosa
crônica publicada no Diário Catarinense















Romão Neto, paulistano, 48, arquiteto e empreendedor no ramo hoteleiro em Florianópolis há mais de dez anos, sempre considerou a ilha um verdadeiro paraíso, principalmente no tempo em que era mais fácil conseguir licenças ambientais, e por isso está abismado com os atentados recentes. “As pessoas falavam que a Ilha está se transformando no Rio de Janeiro e vinha na minha cabeça uma fotografia das praias e das mulheres gostosas”, refletiu. Quando chegou a Florianópolis, Romão repetia aos amigos que, embora fosse paulistano de nascença, já se considerava mané de coração, e inclusive passou a torcer para o Avaí. Na última sexta-feira, ao ler nos jornais que os argentinos não pretendem mais passar o verão em Canasvieiras, Romão avisou pra sua mulher: “Se a coisa piorar, meu bem, voltamos pra Sampa, pois lá pelo menos tem exposição dos impressionistas no MASP”. A mulher, admiradora de arte, concorda com tudo que o marido diz.

Mariana Peres, 35, advogada, postou no seu Facebook, assim que ligou o computador na última terça-feira e leu as notícias na internet, que a culpa dos atentados é também de “todas as pessoas que usam drogas, que financiam o tráfico e dão poder a estes marginais”. A advogada deu a ideia de prender todos os maconheiros nos ônibus da Transol e soltá-los de madrugada pela cidade, ideia que depois ela mesma reconheceu que não tem cabimento, visto que, além do mais, é inconstitucional. Mariana, de fato, não é usuária de drogas ilícitas, apenas de lícitas, como o whisky e os hambúrgueres do Mcdonalds. Se experimentou maconha algumas vezes durante a Universidade, quando ainda era jovem, também é verdade que nunca comprou. E também parou com isso logo em seguida, preocupada com uma taquicardia que lhe deu depois de fumar três baseados em sequência.

Na tarde de quarta-feira passada, alguns minutos depois do governador declarar que tudo estava sob controle, Jéssica Rios, 21, estudante universitária, natural de Concórdia e residente em Florianópolis há dois anos, foi surpreendida no ônibus por dois policiais armados que, pelo que ela entendeu, estavam procurando alguém. Como Jéssica é meio desligada e estava cheia de provas marcadas e trabalhos pra entregar naquela semana, ela nem sabia do que vinha ocorrendo na cidade. Segundo Jéssica, a revista foi rápida: os policiais, de arma em punho, deram uma encarada geral nos passageiros, revistaram a mochila de um homem negro que estava sentado na última fila e deixaram o ônibus seguir. “Eu nunca tinha visto um revólver assim de perto!”, ela disse aos colegas, impressionada.

Paulinho Vil, 29, gerente da revendedora de automóveis de seu pai, veio de Blumenau com mais quatro amigos pra ver o show do Chiclete com Banana no Folianópolis, a micareta mais doce do Brasil, e presenciou o incêndio de um ônibus no bairro do Saco dos Limões, na noite de quinta-feira, enquanto saía do supermercado com dois engradados de cerveja debaixo do braço. “Só deu tempo de ver os malucos fugindo, e aí nós cantamos pneu também, só que pro outro lado”, escreveu Paulinho em mensagem a sua namorada – que ficou em Blumenau porque não conseguiu folga no feriado – com o celular na mão direita e uma latinha de Skol na esquerda, ainda em pânico e revoltado com os bandidos. “Tem que matar estes merdas mesmo, não respeitam as leis”, escreveu depois. Já meio embriagado, dirigindo um dos carros do pai, Paulinho foi ver o show do Chiclete com Banana mesmo assim.

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