5.11.12

Imagina na Copa!

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Por Victor da Rosa
crônica publicada no Diário Catarinense


















Se fosse possível, “Imagina na Copa!” seria o novo clichê mais velho do Brasil. Mas não é possível. Primeiro porque um clichê nunca é novo – ou então não seria clichê. E segundo porque “Imagina na Copa” não é um clichê tão velho assim, por mais louco que isso possa parecer, já que um clichê deve necessariamente ser velho. Aliás, digo mais: é o único clichê do mundo que não aconteceu ainda! Tem data marcada. No entanto, como todo clichê, também é muito verdadeiro. Pois bem.

 A expressão nasceu como consequência imediata de um talento inato do povo brasileiro: o de reclamar. Se os leitores estão lembrados da carta que Pero Vaz de Caminha escreveu quando chegou ao Brasil, o tom era mais ou menos o mesmo. Só faltou Caminha dizer no final: Imagina na Copa! Se agora os índios já estão mostrando todas as suas vergonhas e alargando os beiços, imagina na Copa! Na verdade, reclamar é uma instituição presente no imaginário nacional tanto quanto o futebol e a caipirinha, com a leve vantagem de que é possível ver futebol – assim como beber caipirinha – e reclamar ao mesmo tempo.

Como se sabe, a capital catarinense não será sede de nenhum jogo da Copa – no ano que vem, aliás, não será sede nem de jogos da série A do Brasileirão – mas é possível usar a expressão mesmo assim, afinal ela serve pra um monte de coisas. Loco Abreu está fazendo corpo mole? Imagina na Copa. Tem fila na Avenida Beira Mar às 14h de uma quarta-feira? Imagina na Copa. Cacau Menezes está publicando fotos de mulheres só de biquíni em sua coluna? Imagina na Copa. Nevou em Lages? Imagina na Copa. Uma anchova grelhada está custando 80 pratas no Ribeirão da Ilha? Imagina na Copa. O gerente do Banco do Brasil fala portunhol? Imagina na Copa.

No começo, de fato, a expressão dizia respeito apenas aos assuntos relacionados com as políticas da Copa, como a construção de estádios e melhoria nos aeroportos, mas a coisa foi ficando de tal maneira incontrolável que a presidenta Dilma Rousseff, segundo o jornal The Piauí Herald, chegou a emitir um comunicado oficial proibindo a expressão “Imagina na Copa” durante os próximos dois anos. "Isso já está virando comunismo", teria dito a presidenta. Tarde demais. Clichê é igual filho pequeno: se não educar no começo, vai incomodar depois. Deu no que deu. Dizem também que foi a presidenta quem escreveu o roteiro desta última campanha da Brahma, mas aí acho que já é invenção.

De qualquer maneira, acho que esta campanha da Brahma, que tenta mostrar o lado positivo da expressão “Imagina na Copa”, só piorou as coisas. A pessoa vai querer discutir os méritos de um clichê? Não dá pé. É igual quando a gente recebe apelido: quanto mais se aborrecer com aquilo, mais o apelido gruda. E tem uma hora na campanha que o narrador diz: “vamos imaginar como teremos engarrafamento... SIM, TEREMOS, DE TRIOS ELÉTRICOS!” Quer dizer, além de engarrafamento, ainda vai ter a Claudia Leitte cantando? O que tem de bom nisso? Se a Claudia Leitte já é chata no The Voice, imagina na Copa!

Um comentário:

mara paulina arruda disse...

Se o Victor da Rosa já escreve assim agora, imagina na Copa!
Um abraço.