27.11.12

Literatura anã

Por Victor da Rosa
resenha publicada no Diário Catarinense
















De que nome chamar estes pequenos e, por assim dizer, deliciosos textos que compõem Delírio de Damasco, novo livro de Veronica Stigger? Misto de poema-piada, crônica pornográfica e pedagogia de chiclete, o livro é composto simplesmente de frases recolhidas das ruas ou de qualquer lugar.

Originalmente exibidas em uma exposição de arte no SESC de São Paulo, em forma de cartazes – sendo que alguns dos cartazes, na ocasião, foram censurados, seja pelos palavrões ou pela temática sexual – as frases são organizadas através da tríade sangue, sexo e grana. Por outro lado, a graça consiste, muitas vezes, mais pelo que as frases omitem e menos pelo que efetivamente enunciam, o que acaba atribuindo a elas um caráter enigmático e ingênuo. “Mas onde foi? / Na bunda, / ela respondeu”, diz um dos diálogos da seção pornográfica.

O projeto já está anunciado em seus dois elogiados livros anteriores: Gran Cabaret Demenzial, 2007, e Os anões, 2010, em que a velocidade da escrita, às vezes muito próxima da fala, parece solicitar uma forma também pré-literária, se entendemos literatura como construção sólida, romance. A escritora, agora, parece pouco intervir nas frases que recolhe, se limitando às vezes a cortá-la em três versos, dando a elas um ritmo de haicai, só que um pouco mais febril.

O livro de Stigger possui uma natureza complexa que se esconde por trás de uma aparência simples, tosca. Atenta aos vestígios, a escritora parece mais próxima do arqueólogo, e não do literato, o que é reforçado também pelo caráter “documental” de sua ficção. Uma espécie de autoria compartilhada, visto que a Stigger não escreve uma linha sequer de todo o texto, também é uma das discussões fortes do livro.

Com Delírio de Damasco, Veronica Stigger radicaliza o procedimento de sua escrita e vai um pouco mais longe na sua procura por uma literatura estranha a ela mesma; digamos, uma literatura anã.

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Entrevista com a autora e informações sobre o lançamento, aqui.

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