10.12.12

Calor, né?

Por Victor da Rosa
crônica publicada no Diário Catarinense




Nem mesmo a morte de Oscar Niemeyer – o “Neymar da arquitetura”, segundo a minha tia Rosette Rosa, que aliás só não foi ao velório porque não encontrou promoção no site da Gol – nem mesmo isso foi capaz de abafar, digamos, o assunto mais comentado das últimas semanas: o calor. Em linhas gerais, as notícias nunca são muito positivas. Com exceção dos vendedores de batida de abacaxi da Praia do Forte e dos empresários da Kibon, que ficam mais felizes por motivos estritamente capitalistas, a primeira impressão é que ninguém gosta muito de calor. Todo mundo reclamando:

 – Calor, né?

 – Ô!

 Inclusive, parece que existe até uma disputa, principalmente nas redes sociais, pra medir quem está passando mais calor: na Serra, por exemplo, ninguém está acostumado com alta temperatura, então as pessoas continuam, sem perceber, vestindo meias e polainas, o que aumenta a sensação térmica; no Vale, por não chegar quase nada de vento, você tem a impressão de que é um ovo bem passado sendo torturado por uma tribo de antropófagos; por sua vez, o Oeste fica muito longe das praias, razão pela qual as pessoas acabam se virando com banhos de mangueira e erva mate; e no Litoral, finalmente, parece que tudo é divino porque há inúmeras praias e sorvete na promoção, mas isso não significa que a vida é uma grande repartição pública a céu aberto com água filtrada e ar condicionado.

 Rosette Rosa, de qualquer maneira, sempre evitou ar-condicionado. Segundo minha tia, que tem lá sua sabedoria, as pessoas precisam buscar dentro de si as forças necessárias pra enfrentar mesmo as piores adversidades, e não recorrer a recursos exteriores. Foi o que ela fez pra dormir na casa do sítio em Antônio Carlos, no último sábado, tendo à disposição apenas uma cama com lençol do ano passado, daquelas que causam uma rinite danada, e um ventilador barulhento. Se desligasse o ventilador, que parecia um Chevete no momento da arrancada, aí tinha que abrir a janela, momento em que os pernilongos de Antônio Carlos, que são os mais sanguinários do mundo, faziam o seu trabalho.

 Outra explicação pra não usar ar-condicionado é que antes minha tia não tinha dinheiro pra comprar um; e depois acabou se acostumando. O próximo passo, fosse minha tia uma pessoa menos teimosa, seria mudar de ideia. Na verdade, sempre muito prevenida, Rosette defende que ar-condicionado é igual compras de Natal com cartão de crédito; na hora é uma beleza, mas e depois? Se a pessoa fica meia hora no bem bom do ar-condicionado, bem, quando sai na rua a vida fica três vezes pior. Por outro lado, se a pessoa fica direto torrando, não sente tanto a transição. O calor, nestes casos, faz a cobrança em prestações com juros altos.

 – Sorte mesmo teve o pavão do Luiz Henrique, que ficou depenado na hora mais crítica! – desabafa a minha tia.

 A verdade é que as pessoas detestam o calor com a mesma intensidade com que detestam, por exemplo, o frio. As mesmas pessoas que hoje reclamam da chegada do verão vão reclamar também do inverno daqui a duas estações. Minha tia é assim. Ela é daquelas que, durante o inverno, pensam que no verão é melhor porque fica todo mundo com roupa curta, mostrando as qualidades, sem medo de ser feliz, e aí quando chega o verão ela diz: “ah, como as pessoas perdem a elegância no verão!”. Daí chega outra vez o inverno e ela, esquecida, diz a mesma coisa, só que ao contrário: “Bom mesmo é areia fina, picolé e sal do mar tudo misturado e grudado no corpo da gente!” Enfim, é uma complicação a cabeça da minha tia.

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