24.12.12

Mar que sobra

Por Victor da Rosa
publicado no Diário Catarinense


Durante a semana passada, como se nos lembrasse de que as coisas não vão bem, uma pequena fragata de madeira, antigo navio de guerra, afundou no coração do Centro de Florianópolis, na rua Victor Meirelles, arrancando as lajotas do chão. Ao olhar da esquina, na Praça XV, com certo susto, já era possível avistar um poste inclinado, que na verdade era o mastro da embarcação, enquanto as cordas se confundiam com os fios de luz, anunciando uma improvável catástrofe.

 O mais correto, por prudência, seria noticiar que não se sabe ao certo se a fragata emergia do fundo da terra, como um demônio, como um predador bastante determinado, ou se realmente afundava, frágil, ainda com o bico em direção ao céu. Não havia mais ninguém ali pra nos contar. Daí o susto. E o susto era capaz de permanecer.

 A escultura pública, o ponto mais alto da exposição itinerante Mar... que falta, foi realizada pelo artista catarinense Maurício Muniz e permaneceu durante uma semana encalhada, imóvel e enigmática. No entanto, apesar da falta de entendimento, tudo nos leva a acreditar que se trata da embarcação de um navegador desavisado, que não teve as últimas notícias a respeito da nova geografia do Desterro (aterros, asfaltos). Foi uma viagem que durou três ou quatro séculos.

 A cena da fragata – que, como se sabe, também é o nome de uma ave marítima de rapina – pode ter ainda outras explicações: nada além da fotografia mais comum de um pássaro logo depois do bote; cena paralisada de um predador dançando, voltando à vida, enquanto come. Se isso for verdadeiro, também teríamos que imaginar aquela estreita rua de lajotas como um córrego vazio, um mar que falta. Alguém, portanto, precisa pagar um preço.

 O artista, a meu ver, acertou em cheio como poucos foram capazes de fazer na história da arte em Santa Catarina. Não tenho o menor receio de dizer que se trata de uma obra tão arrebatadora quanto as melhores instalações de Nuno Ramos, por exemplo, artista que provavelmente esteve na cabeça de Maurício Muniz. A realização da escultura é tão complicada quanto impecável, a sua relação com a paisagem urbana é surpreendente e natural – parece que a fragata sempre esteve e ficará para sempre naquela posição, como se pausasse o tempo – e os efeitos, além de perturbadores, são leves como o vento que lhe fez chegar até ali.

 A escultura, aliás, alcança o máximo do peso – não esconde a violência que lhe é intrínseca, sendo também uma peça de crítica social – sem perder o mínimo de delicadeza, e sobretudo sem qualquer moralismo. A cena apenas expõe o momento exato de uma crise. Várias crises. Depois some e não diz mais nada. Ficamos nós tentando encontrar respostas.

 De outra maneira, a fragata de Maurício Muniz realiza um pequeno nó na própria concepção geral da exposição Mar... que falta, que procurou discutir a ausência do mar, com curadoria de Fernando Boppré e Vanessa Schultz. Pois a cena, além do mais, parece esbanjar a ideia de que o mar sobra, inunda, talvez resista, como se o mar estivesse em todo lugar, mesmo em nós. Desterro não é apenas a ausência de terra. Desterro seria, mesmo hoje, a permanência do mar.

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