3.12.12

Prezado editor

por Victor da Rosa
crônica publicada no Diário Catarinense



Sinto informar que hoje, infelizmente, não poderei enviar a crônica que toda semana envio. Começo a escrever esta carta na sexta-feira, dia 30, às 15h, depois de passear os olhos durante longo tempo na frente do computador sem qualquer inspiração; depois de andar pelas ruas do centro de Blumenau em busca de uma cena comprometedora e escandalosa, mas a única coisa que tem de errado nesta cidade é a pista de mão inglesa no alto da rua XV; depois de beber xícaras e mais xícaras de café no Hotel Glória, onde encontrei a melhor torta de limão do mundo e acabei ficando... Em outras palavras, escrevo esta carta já sem qualquer resquício de esperança.

 Na verdade, talvez por me faltar senso de oportunidade, não tenho nem mesmo um bom assunto pra tratar. Durante a semana, com exceção da Guerra da Cisjordânia e uma nova chacina em São Paulo, que não são assuntos para uma coluna de segunda-feira, tudo correu tão tranquilo que até assusta, você não acha? Bem, pelo menos assim me pareceu. De resto, continuo determinado a não escrever sobre a garota que vendeu a virgindade – chegou a ver que ela será capa da Playboy? – e também não direi nada a respeito do novo técnico da seleção brasileira, muito menos sobre Fuleco, o mascote. Francamente, viu! Nos últimos anos, por recomendação do meu gastro, tenho evitado os assuntos mais polêmicos e também os palavrões.

 É verdade também que passei uma semana muito ocupada. Na segunda, em Joaçaba, ministrei um curso rápido de interpretação de mapa astral para escritores desempregados; foi um sucesso. Terça e quarta passei o dia escrevendo umas encomendas atrasadas: duas dúzias de sonetos de amor em decassílabos que alguns jovens tímidos costumam pedir para impressionar suas namoradas. Na quinta, cheguei a Blumenau com a missão de avaliar a qualidade de algumas cervejarias para um concurso gastronômico promovido pela revista Tchuco. De maneira que hoje, sexta, acordei de ressaca e isso também atrapalhou um pouco as coisas. Aí quando foi, deu.

 Outra coisa que atrapalhou, além da falta de assunto, da falta de inspiração e principalmente da falta de vergonha – bem, estou brincando – foi a falta do meu quarto. É que tenho uma mania: não consigo escrever em hotéis e muito menos em cafés. Nem em bibliotecas eu consigo. Não é questão apenas de silêncio, e sim de intimidade. Quando escrevo, sinto como se eu estivesse fazendo algo muito errado; realizando um crime, por exemplo. Neste caso, preciso me esconder muito bem. Em lugares públicos, tenho a sensação de que estão me descobrindo. Acho romântica a ideia de escrever em cafés, mas o texto nunca me sai bem. Fica parecendo que estou mentindo, que não estou realizando o crime em sua plenitude.

 Enfim, gostaria de pedir desculpas, reafirmar meus compromissos e dizer também que isso jamais se repetirá, mas também conto com sua compreensão e espero que possa entender os meus motivos, que, como você viu, não são poucos. No lugar da crônica, é possível publicar aqueles informes sobre os últimos lançamento de livros, quem sabe a fotografia de um escritor famoso sentado em sua poltrona ou, em último caso, a propaganda de algum centro cultural? O que acha? Estive pensando nisso. Pretende publicar outra crônica no lugar? Bem, estou enviando os sonetos de amor em anexo. Na falta de melhor opção...

 Atenciosamente,
Victor da Rosa.

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