17.12.12

Saco de Papai Noel

Por Victor da Rosa 
crônica publicada no Diário Catarinense



Na madrugada da última sexta-feira, Otávio Ribeiro Redondo, 46, que estava há alguns dias fazendo um bico como Papai Noel para a Associação de Moradores do Saco Grande, foi visto embriagado pelas ruas do bairro, cambaleando e fazendo certa algazarra.

 Redondo foi reconhecido por alguns moradores porque ainda estava vestido com a roupa de trabalho, ou pelo menos o que restou dela. O cinto, o gorro e o par de botas, por exemplo, foram deixados pelo caminho – no bar – e recuperados apenas no dia seguinte, após lembrança do próprio Redondo, naquele instante da ressaca em que a pessoa tem alguns lampejos da noite anterior. A barba, no entanto, não teve a mesma sorte. Talvez por ter sido perdida aos poucos, parece que foi levada pelo vento. Enfim, não se sabe. Por outro lado, por algum motivo obscuro, Redondo permaneceu todo o tempo abraçado com o saco de presentes, mesmo durante o depoimento prestado na delegacia, de onde aliás foi solto após responder algumas perguntas.

 Tudo começou quando Otávio Ribeiro Redondo, que na verdade é garçom durante o ano, e não Papai Noel, naturalmente, aceitou convite de seu cunhado, Luiz Delgado, diretor de eventos da Associação de Moradores, para fazer um freelance durante o mês do Natal. Segundo Delgado, o cunhado foi escolhido por preencher três critérios: 1) o porte físico, 2) a facilidade na comunicação e 3) a empatia e paciência com as crianças da família. O trabalho de Redondo consistia em trafegar pelo bairro durante sete dias, das 14h às 16h, sentado na carroceria de uma Saveiro improvisada de trenó, jogando balas e acenando para as crianças, o que já era um sofrimento do cão, visto o calor que tem feito. No fim do trajeto, Redondo teria que descer em uma praça, distribuir alguns brinquedos e tirar fotos sorrindo durante mais uma hora, até às 17h.

 –Uma coisa é você brincar com seu filho, com seu sobrinho, que você pode dar uns cascudos se o moleque se passar; outra coisa é tomar empurrão e puxão na barba de cento e cinquenta moleques e não poder fazer nada! – desabafou o ex-Papai Noel.

 Redondo, que tinha que usar longas barbas falsas para convencer, desistiu de ser Papai Noel logo no terceiro dia de trabalho, após receber do cunhado a primeira parte do pagamento, que gastou, como já se pode prever, quase tudo no bar, tanto em cerveja quanto em bolinho de mandioca com carne seca, mas principalmente em cerveja. A outra parte do pagamento Redondo terá que devolver ao cunhado: vai servir pra comprar outra barba para o novo Papai Noel, que acabará sendo o próprio cunhado, levando em conta a urgência da situação. Não se arruma um Papai Noel assim do dia pra noite.

 Além das condições adversas do trabalho – o calor na carroceria da Saveiro, os puxões na barba, etc. – Redondo teve que lidar com piadas e contratempos: amigos do futebol diziam que ele ficou parecendo o Ronaldo Fenômeno, por exemplo; e a esposa, em poucos dias, foi perdendo o interesse nele como homem. Mas a gota da água foi quando Redondo descobriu que também teria que ler as cartinhas das cerca de cento e cinquenta crianças do bairro. Aliás, pior: ler e responder. Sendo que nem estava no contrato. Foi quando Redondo, que nunca foi muito bom em português, acabou discutindo com o cunhado, seu chefe, por quem sempre teve consideração, e acabou na situação que o leitor já conhece. 

– Ah, não tenho saco pra isso, não! – teria dito Redondo, que no fim das contas parecia alguém com algum senso de humor.

Um comentário:

camiseta disse...

ola! Vim fazer uma visita e dizer que seu espaço esta muito lindo!
Parabéns,forte abaraço... de camiseta