14.1.13

A melhor entrevista que não fiz

Por Victor da Rosa
publicado no Diário Catarinense


Na última quinta-feira, um dia antes dos Racionais MC’s chegarem a Florianópolis, a assessoria do grupo, conhecido por uma posição bastante prudente em relação à mídia, colocou algumas dificuldades para a entrevista que eu gostaria de ter feito com Mano Brown, Edi Rock e companhia. Com alguma negociação, no mesmo dia, a entrevista foi confirmada: seria antes do show, marcado para às 21h, no camarim do grupo. Depois eu soube que a confirmação, em alguns casos, consiste em uma estratégia para que os jornalistas – eu, no caso – deixem os assessores em paz, quando ninguém do grupo quer falar.

Passei a noite preparando seis ou sete perguntas para os integrantes do grupo, principalmente para Mano Brown, que há um mês, enquanto recebia importante prêmio de direitos humanos, entrou em uma polêmica direta com o governo de São Paulo, sugerindo o impeachment de Geraldo Alckmin, por considerar sua polícia genocida. Minha primeira pergunta trataria também dos temas sobre os quais Mano não gosta de falar: “o que os jornalistas sempre perguntam e você não gosta de responder?” Além de ser uma pergunta de efeito, eu evitaria futuras gafes. Lembro de Keith Richards, o guitarrista dos Rolling Stones, respondendo a uma pergunta semelhante de um jornalista britânico: “Esta, por exemplo”.

 Só que alguns momentos antes dos Racionais chegarem ao parque do Planeta Atlântida, na sexta-feira, recebemos outra mensagem de sua assessoria: "Não temos interesse em dar entrevistas”. E assim foi. Até tentamos novamente contornar, cheguei a conversar diretamente com Edi Rock e com Mano Brown, a quem eu menti dizendo que era santista, na tentativa de sensibilizá-lo, mas a estas alturas eu já tinha entendido que a entrevista não sairia. E fiquei pensando que talvez a negativa fosse a melhor resposta que eu poderia ter. Uma negativa, no mínimo, acaba expondo os conflitos de maneira mais singular, tensa. Além de coerente com a história dos Racionais, a postura destoa de certa histeria geral.

 Fui preparado para fazer uma série de perguntas mais ou menos previsíveis, das quais eu já conhecia a posição dos Racionais, por acompanha-los há algum tempo, e tive uma resposta inesperada, bastante significativa afinal: o silêncio. De resto, o que o grupo tinha de melhor a dizer foi dito poucos minutos depois, no palco. O primeiro show do ano dos Racionais MC’s, um dos primeiros depois do prêmio da MTV pelo melhor clipe de 2012, com Mil Faces de Um Homem Leal (Marighella), provavelmente será inesquecível. Para o público, talvez para o grupo, e certamente pra mim.

 No palco, além dos quatro integrantes principais dos Racionais, estavam também alguns novos rappers, para quem Mano Brown deu espaço no fim do show, e que foram responsáveis por uma verdadeira ocupação no palco. “Moleque acabou de fazer 25 anos e nunca cantou para mais de mil pessoas. Vai que é tua, são 40 mil, 50 mil, sei lá, a chance da vida”, disse Mano, que falou pouco com o público, mas não esqueceu de mencionar o nome de Santa Catarina duas ou três vezes, e quando falou fez questão de lembrar de recentes genocídios policiais em São Paulo: “Não querem que o preto entre no novo Brasil. A luta é desigual. Nós de estilingue. Eles de fal. Ninguém tá pedindo arrego, não. Só direito igual”.

 O show dos Racionais abriu com um dos grandes raps do grupo: Tô ouvindo alguém me chamar; e com exceção de duas ou três letras, ainda desconhecidas, quase todos os hits foram lembrados: Jesus Chorou, Vida Loka e Negro Drama, por exemplo, foram cantadas em peso pela plateia. Pra encerrar, dois espumantes foram estourados sobre o público no fim da segunda parte de Vida Loka, cujos últimos versos são lindos: “Em São Paulo, Deus é uma nota de 100.” Pra bom entendedor, poucas palavras bastam.

3 comentários:

Lengo D'Noronha disse...

A melhor não entrevista que li.

Lengo D'Noronha disse...

Pois é a melhor 'não entrevista' que li.

Victor da Rosa disse...

obrigadão pela leitura, meu caro!