21.1.13

A vida é cheia de som e medo

Por Victor da Rosa
publicado no Diário Catarinense












Na semana passada, o melhor filme brasileiro dos últimos meses, O som ao redor, primeiro longa dirigido pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho, teve suas primeiras exibições em Santa Catarina, no cinema do CIC, na capital. Tenhamos agora a esperança de que suas exibições possam se multiplicar também no circuito comercial, para que outras pessoas tenham a chance de assisti-lo, pois além de ser um excelente filme, acima da média do cinema nacional, acredito também que seja relativamente acessível, o que aliás considero uma de suas qualidades. Seria muito bom para o cinema brasileiro, mas sobretudo para a cabeça das pessoas que irão assisti-lo. Quer dizer, dependendo da perspectiva.

 Do que trata o filme? De muitas coisas, como a especulação imobiliária em Recife, a tensão em torno das relações entre pessoas de diferentes classes, com uma incômoda memória do regime escravocrata, e a solidão aliada à falta de intimidade, mas sobretudo do medo, que pode chegar às margens do horror. Mas medo do quê? De nada exatamente. A rigor, o enredo exibe o medo de assaltos, de tubarões, do outro, mas não é isso o que mais importa. Uma das discussões interessantes do filme consiste na sugestão de que o medo pode ser uma emoção intransitiva, ou seja, uma paranoia vazia, que não encontra confirmação nos fatos. Há algumas cenas que sugerem isso, mas vou lembrar apenas de uma. De madrugada, um carro para no meio da rua, a 20 metros de dois seguranças noturnos, e permanece ali durante alguns segundos, com as luzes ligadas, misteriosamente; até que alguém sai do carro vomitando e tudo volta ao normal.

 É curioso que os conflitos passem a existir após a chegada de guardas noturnos particulares; aliás, o filme está dividido em três partes: Cães de guarda, Guardas noturnos e Guarda-costas. Trata-se de uma ironia evidente, pois o que aparece com o objetivo de acabar com possíveis conflitos na verdade é o que causa. A inutilidade dos guardas durante toda a narrativa – que se limitam a resolver problemas absolutamente banais, como ajudar um argentino meio perdido – torna ainda mais evidente o que antes era apenas uma ironia. A última cena do filme, em uma virada mais ou menos surpreendente, embora bastante literal, só vem confirmar tal hipótese: os guardas não estão ali para impedir a violência, e sim para aumentar o medo. De resto, não aparece sequer uma arma no filme.

 Kleber Mendonça Filho, embora não seja um cineasta famoso – agora talvez fique – não era completamente desconhecido do público catarinense. Recentemente, um de seus curtas, Recife Frio, de 2009 – falso documentário sobre uma das cidades mais quentes do país onde, por algum motivo, começa a nevar – causou sensação no FAM, o tradicional festival de cinema que acontece há anos em Florianópolis. Assim como Eletrodoméstica, outro curta do diretor, este lançado em 2005, trata-se de um filme que transforma argumentos absurdos em situações engraçadas e, agora, com O som ao redor, também muito perturbadoras. Com domínio preciso do gênero suspense, que aparece no longa misturado a outras referências, o diretor soube dar mais peso a seu cinema, sem recorrer a qualquer efeito de apelação.

 O som é outro dos pontos fortes do filme. Em certo sentido, o som é o grande protagonista desta trama que parece não ter protagonista algum. Mesmo João – que, aliás, é interpretado por Gustavo Jahn, ator e também diretor nascido em Florianópolis, hoje em Berlim – não pode ser considerado protagonista, apenas por ter aparecido mais do que os outros. De resto, a música quase sempre está sendo ouvida no último volume, o que impede os personagens de se escutarem; o latido do cachorro é estridente, impedindo a vizinhança de dormir; e a falta de comunicação entre os personagens, que tem a cena da reunião de condomínio como melhor exemplo, sugere que até mesmo os diálogos se tornam puro ruído. A vida é cheia de som, mas não de fúria, talvez, como no romance de Faulkner. O medo está nas pequenas coisas, no silêncio.

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