25.2.13

A invenção da roda

Por Victor da Rosa 
Publicado no Diário Catarinense
















Na semana passada, entre sentimentos contraditórios, como quem procura motivos para se aborrecer – às vezes, quando a vida está chata, tudo que a gente precisa é de um pouco de aborrecimento – vesti minha roupa mais bonita e fui assistir a uma palestra do Ferreira Gullar sobre arte contemporânea. Não me arrependo.

 Na verdade, acho desafiador fazer coisas contra a própria vontade. O bom senso sempre nos diz para respeitar os nossos próprios desejos, mas isso pode vir a ser muito limitador, afinal você corre o risco de se tornar uma espécie de escravo de si próprio. Ir contra você mesmo, apesar de inconveniente, é libertário. E pode ser uma boa maneira de se surpreender. Depois, confesso que não consigo ler com dedicação a obra de Ferreira Gullar – um poeta que merece ser lido, naturalmente – por causa de uma profunda má vontade que, verdade seja dita, o próprio poeta ajudou a desenvolver com suas opiniões toscas a respeito de tudo. Dizem que seu último livro de poemas, que não li, por exemplo, é muito bom.

Não confesso isso sem uma ponta de vergonha, pois eu deveria saber separar sua poesia de suas opiniões. Muita gente diz que Jorge Luís Borges, o grande escritor argentino, era um sujeito complicado, mas nunca deixei de ler seus contos por isso. Por outro lado, conheço muitas pessoas legais que, infelizmente, não são bons artistas. Como se sabe, o mundo não é justo. Enfim, talvez a presença de Ferreira Gullar me sensibilizasse, embora é claro que ele continuará vivendo muito bem sem o meu perdão. Pelo menos pude entender, coisa que ainda não tinha feito, a pobreza de seus argumentos.

 Em resumo, Ferreira Gullar simplesmente não se conforma com a ideia de que não existe nada intrínseco à arte que possa nos garantir que aquilo é arte – o outro nome disso é acreditar em valores essenciais. Trocando em miúdos, Gullar não entendeu, ou finge não entender, o princípio mais básico do mundo moderno: o de que a única coisa que pode validar um documento é a legitimidade da assinatura, uma autoridade exterior ao objeto, portanto. Gullar não entendeu também, por consequência, que o campo da arte não é autônomo em relação à vida e que, portanto, um museu e um cartório funcionam da mesma maneira. Dentre outras coisas, foi isso que Marcel Duchamp nos ensinou quando expôs sua roda de bicicleta no museu, e de cabeça pra baixo ainda por cima. A roda só é arte porque uma assinatura de artista diz que é, e não ao contrário.

 Na verdade, Gullar dá algumas provas de que já entendeu tudo isso; ele apenas não se conforma ou finge não se conformar. Pela rispidez com que fala, aliada à satisfação que parece sentir quando uma plateia de estudantes desavisados aplaude suas piadas de gosto certamente duvidoso, talvez Gullar não se conforme mesmo. “Colocar cocô numa latinha agora é arte?”, pergunta o poeta. Da mesma maneira que Gullar pode dizer que é crítico de arte porque assina um texto de tal maneira ou porque é apresentado assim para uma plateia que está ali para escutá-lo falar sobre arte, colocar cocô em uma latinha será arte desde que exista condições pra isso. Ora, tenho um primo que fala exatamente as mesmas coisas que Gullar, só que no boteco, e por isso não deve ser considerado um crítico de arte. 

Não sei o que pode acontecer quando Ferreira Gullar descobrir que a invenção da roda é um caminho sem volta. Talvez ele pare de escrever, compre um sítio na região dos Lagos e vá cuidar dos seus passarinhos. Só que acho improvável. Devemos nos conformar com a ideia de que o abismo que se tornou o pensamento de Gullar também é um caminho sem volta.

5 comentários:

Leandro Lança disse...

Será que vimos a mesma palestra? Tbm escrei algo sobre:

http://leandrolanca.tumblr.com/post/43732003803/ferreira-gullar-aplaudido-e-alair-gomes-censurado

Victor da Rosa disse...

Oi, Leandro, obrigado pela visita. Li seu texto; sim, a gente assistiu a mesma palestra... Que coisa, né? Por outro lado, sobre a outra parte de seu texto, achei que tinha trabalhos tão bonitos no recorte da bienal que está no Palácio. E achei tão simpático também ver uma bienal em tamanho reduzido, versão miniatura! Você é fotógrafo? Um abraço pra você! Victor.

Leandro Lança disse...

Oi Victor, tem sido um prazer ler o que você escreve, há um tempo atrás, por exemplo, foi um achado ler seu ensaio “O homem em farrapos: a moda e o novo em Flávio de Carvalho”.

Eu não sou fotógrafo, apesar de gostar muito do campo e ter feito algumas disciplinas de fotografia na EBA. Tenho trabalhado com arte-educação.

Sobre o recorte da bienal, acho muito bacana e importante esta itinerância, mas achei muito equivocada a expografia desta vez. O tema desta bienal (constelações?) visava criar relações/aproximações entre os artistas (isto não deveria ser no mínimo a obrigação de qualquer curadoria?), e o ponto positivo foi a escolha em apresentar conjuntos significativos de cada artista. O expressivo conjunto de Bispo ao lado dos vários trabalhos em bordado de Elaine Reichek, eram um bom exemplo da proposta do curador. Agora, como apresentar, ainda que um recorte desta proposta, num espaço como o Palácio? Ou você tras mais obras de menos artistas, ou espalha este recorte por outros centros culturais. Além disso, deixaram de trazer, na minha opinião, o que de melhor havia na Bienal como: Gego, Eduardo Gil, Waldemar Cordeiro, Ali Kazma, as performances mais significativas de Kaprow e Bas Jan Ader, alguma célula do Absalon, trabalhos incríveis de pintura (que tiveram um retorno nesta edição) enfim... No centro de fotografia, além da censura ao Alair Gomes, como entender a escolha de expor os trabalhos de Roberto Obregón e Bouabré que não tem nada a ver com fotografia e deixar de fora as belíssimas séries do norte-americano Mark Morrisroe? Acredito que aqui o caso novamente foi de censura, tendo em vista a temática de Morrisroe, mas havia muitos trabalhos em fotografia significativos para expor e optaram por tapar buraco, claramente.

O recorte feito na itinerância da 29 bienal, foi muito superior e muito mais coerente, desta vez ficou mais difícil entender o que estava propondo uma curadoria que, mesmo para quem viu integral em SP, já estava quase impossível.

Grande abraço!

Victor da Rosa disse...

Ah, então provavelmente você tem razão. Não consegui ver a bienal no ano passado, estava meio por fora. Tudo o que você diz deve ser levado em consideração. E que surpresa saber que você leu meu texto sobre Flávio de Carvalho. É um artista e tanto, não? Um abraço, e obrigado pelo comentário!

Anônimo disse...

Amigo, creio que a filosofia da arte partilhada por Ferreira Gullar envolve a noção de conceito, que antecipa o fazer artístico e todas as demais atividades do ser humano, uma espécie de drible filosófico nessa discussão sobre o que é ou não arte. Se o cocô na latinha envolve um conceito teórico aplicável a uma visão do mundo que o artista eventualmente possua, então isso pode ser considerado uma manifestação artística, embora eu considere que o máximo que um "artista" poderá obter com semelhante obra - sem trocadilho - será expor aos outros que ele considera a vida uma merda, ou - se a tal latinha estiver ainda com o rótulo - que a sociedade de consumo é que é uma merda, e por aí vai. Como se alguém estivesse interessado na opinião do sujeito sobre tema tão vago. Fora isso, a única comunicação que ele irá obter será olfativa. Tenha paciência com o octogenário Gullar, ele é sim um grande poeta, como eu tenho, eu que ouço rock'n'roll há quarenta anos, e acho a opinião dele sobre o assunto equivocada e desnecessária.