18.2.13

Habemus Papam, só que não


Por Victor da Rosa
Publicado no Diário Catarinense












Existe um boato de que a renúncia do papa na verdade foi um golpe que o cineasta italiano Nanni Moretti armou, com o apoio de sua equipe de produção, para dar mais publicidade a seu último filme, que chama justamente Habemus Papam, lançado há um ano e facilmente encontrado em qualquer locadora, mesmo nas ruins. Por outro lado, há quem defenda que Nanni Moretti não tem nada a ver com isso, pelo menos diretamente, visto que foi o papa, por livre e espontânea vontade, que alugou o filme na locadora do Vaticano, provavelmente ludibriado pelo título, e acabou sofrendo as influências de um diretor que, além de italiano, é ateu. Não se sabe. A única coisa que se sabe é que a vida imita a arte e, nesse caso, ela – no caso, a vida – exagerou.

O filme de Moretti, pelo menos nos primeiros minutos, nem parece ser tão semelhante assim aos episódios recentes que envolvem a renúncia do papa, mas no fim a gente sai acreditando que o diretor, embora não tenha assinado o roteiro sozinho, é uma espécie de vidente abençoado por Deus, só pra ficar no exemplo mais óbvio.

O filme começa, segundo a indicação do título, com a eleição de um novo papa, que a princípio, aliás, e isto é fundamental, curte muito a ideia. Para quem não teve latim no ginásio, Habemus Papam é o texto lido pelo cardeal para anunciar a eleição de um papa novo, e significa “temos papa”. Só que o nome do papa de Moretti, Melville, imediatamente nega qualquer possibilidade de desfecho positivo dessa história, afinal Melville é o escritor norte-americano que escreveu Bartleby, o escrivão, personagem que, por sua vez, ficou conhecido sobretudo por uma frase: “Preferiria não”. O Melville de Moretti, claro, vai fazer igual. Mas voltemos à tese principal desta crônica: a de que Nani Moretti é um vidente abençoado por Deus.

Levando em conta que estamos diante de um fato inédito na história da Igreja Católica e com um tema, salvo engano, também inédito na história do cinema, não se pode falar em acaso, e sim em vidência. O fato é que o preâmbulo do filme, que trata de um começo próspero, só serve para evidenciar com maior clareza seu único tema, que será o mesmo dos noticiários: a renúncia. Ou seja, assim como Bento XVI, talvez por outro motivos, mas isso francamente é o que menos importa, Melville também é um amarelão.

Na verdade, Melville é um pouco mais amarelão, pois renuncia antes de assumir – e mesmo já sendo papa, pois foi anunciado aos milhares de fieis que aguardavam febrilmente sua presença na varanda da praça São Pedro. No momento em que o cardeal diria seu nome, depois de saudar a massa em umas duzentas línguas diferentes, menos em português, mostrando toda sua erudição e sua excelente pronúncia, Melville cai no desespero, deixando o cardeal com expressão de coroinha. “Me ajudem! Não consigo! Não consigo!!”, gritou o novo papa, e vazou para sua alcova.

Depois disso, entre a comédia, a farsa e até mesmo a tragédia, como queira, Melville consegue fugir do Vaticano, anda de ônibus, recorda seu amor pelo teatro, frequenta cafés, enfim, vive mil aventuras, só não arruma namorada, o que significa dizer que o filme às vezes é tão engraçado quanto a realidade, seja lá o que isso for. Na última cena, finalmente, o papa vai saudar os fieis, que pelo jeito ainda estavam lá esperando, e confessa o inconfessável: que não pode ser um guia. “Infelizmente compreendi que não estou em condições de sustentar o encargo que me foi confiado”, diz o papa, que passou uns dias fazendo psicanálise.

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