25.3.13

Cem metros com barreiras

Por Victor da Rosa
Publicado no Diário Catarinense

















Desde sua primeira edição, a Maratona Cultural – a começar por esse nome – já apresentava razões suficientes pra ser considerada um evento equivocado, mas agora conseguiu realizar o que parecia impossível: piorar. Aliás, não canso de me surpreender com a capacidade que temos de piorar o que já era ruim o suficiente. De vez em quando aparece uma surpresa nova.

 A meu ver, o principal problema da Maratona é a completa incompetência na hora de apresentar um conceito minimamente consistente de cultura, embora o conceito de maratona esteja bem delineado: três dias longos, desgastantes e que não nos levam muito longe. Por exemplo, a programação deste ano contemplou, além do show de Jorge Mautner no encerramento, também a II Copa Dominópolis de Dominó na Sociedade Amigos do Curió, no sábado de manhã, às 10h. Não conheço os critérios de seleção usados pelas pessoas que fizeram a curadoria do evento, e parece que elas também não.

 Como se não bastasse, a Maratona tem outros problemas que ainda considero bem graves. Um deles é o grande investimento em publicidade, provavelmente uma herança de sua primeira edição, quando o evento funcionou como plataforma de lançamento da campanha de César Souza Junior, atual prefeito da capital e na época Secretário de Cultura do Estado. Deu certo. O que nos faz concluir que pelo menos um de seus papéis a Maratona já cumpriu.

 Quem trabalha com cultura em Santa Catarina sabe que, com os constantes adiamentos do Edital Elisabete Anderle, principal fundo público de estímulo à cultura do Estado, tem sido uma penúria para os artistas realizar pesquisas, livros, cursos ou espetáculos novos – além de torneios de dominó. Como se sabe, as políticas culturais funcionam, basicamente, através de 1) formação, 2) fomento e 3) difusão, sendo que a Maratona, que tem mordido parte significativa do orçamento do Estado, investe apenas no terceiro item da lista – ou seja, em intensa propaganda –, uma opção obviamente mais confortável e de resultados a curtíssimo prazo, além de pouco condizente com as necessidades atuais dos artistas catarinenses.

 De maneira escandalosa, se escândalo ainda existisse, a Maratona surgiu paralelamente ao desaparecimento do Edital, que teve sua última edição em 2009. Como temos a convicção de que coincidências deste tipo só acontecem nas novelas da Glória Perez, e como não acreditamos mais em novelas pelo menos desde o surgimento de Malhação, o que interessa agora é esclarecer quem ficou com quem nos bastidores.

 Trocando em miúdos, a proposta da Maratona Cultural pode ser resumida como demagogia, cooptação e indigência – sendo que na semana passada, com as polêmicas em torno do cancelamento do espetáculo teatral Kassandra, um evidente gesto de censura, deve ser incluído ainda os itens obscurantismo e preguiça. Afinal o governador, sendo gestor de recursos públicos e não crítico teatral, não tem o direito e nem formação para opinar sobre o que é melhor ou pior para uma peça, decisão que a organização do evento acabou, infelizmente, endossando.

 A consequência de tantos equívocos, somando aos outros que já existiam, foi a debandada de uma série de grupos e produtores, que se recusaram a participar do evento, o que nos faz concluir que a única saída para a Maratona Cultural agora fica sendo mudar de nome: Cem metros com barreiras.

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8 comentários:

Fátima Costa de Lima disse...

Victor da Rosa,
se tivesse um, tiraria o meu chapéu para você por sua coluna "Cem Metros com Barreiras". Sua fina ironia diverte, critica e esclarece pontos fundamentais do debate que os artistas e produtores do estado de Santa Catarina travam com o evento. Parabéns e obrigada.

Victor da Rosa disse...

Muito obrigado pela estímulo, Fátima! Obrigado você.

Sandra Knoll disse...

Oi Victor. Parabéns pela matéria!ë realmente revoltante todo esse circo. Esse evento é descaradamente do GOVERNO. No material de mídia nem se vê o nome dos laranjas que "idealizaram"o evento. Evidentemente, a produtora nem deve ter sido indagada sobre a retirada do Kassandra. Esse foi o estopim de tudo. Abraços

Régius Brandão disse...

Victor, seu texto é para mim é a melhor reflexão de todas que li nestes dias. Forte abraço!

Victor da Rosa disse...

Grato pela leitura, gente.

tatiana cobbett disse...

É sempre recompensador encontrar reverberação para nossos anseios. Aqui podemos então ir além das barreiras. Atuantes e atentos quem sabe não passamos em vão!?
Beijares gratos

Karin Serafin disse...

Meus parabéns! Você foi perfeito!

Tadeu disse...

MAS fica uma pergunta no ar: esse pessoal do edital Elisabete apresenta as suas obras em diversos pontos da cidade e de um modo tão abrangente? don' think so
e outra: a cidade já oferece tão pouco que fico até aflito de reclamar do disponível.