4.3.13

O orgasmo e o caramujo


 Por Victor da Rosa
Publicado no Diário Catarinense

Certa vez, há alguns anos, acompanhei dois amigos debatendo quem seria o melhor prosador brasileiro em atividade; ou seja, um debate que não leva a lugar nenhum. Um deles defendeu o nome de Raduan Nassar, 78, com a licença de que a única atividade de Raduan nos últimos anos é não ter atividade alguma, pois nem a lavoura parece lhe interessar mais; e o outro optou por Zulmira Ribeiro Tavares, 82, esta sim uma escritora em pleno domínio de seus atos. Como não restava mais ninguém na conversa, os dois pediram que eu desempatasse o placar e, por nunca ter ouvido falar no nome de Zulmira, tive que improvisar uma saída:

– Olha, acho que essa conversa não leva a lugar nenhum – e passei a dissertar sobre coisas que não levam a lugar nenhum, assunto do qual sempre fui um grande conhecedor.

Agora posso assumir sem problemas que não tinha lido os livros de Zulmira naquela época, pois no dia seguinte comprei quase todos, que aliás não são muitos, e foi assim que, em pouquíssimo tempo, passei de completo ignorante para quase um especialista em sua obra. De qualquer modo, se me perguntassem outra vez se Zulmira é a melhor prosadora brasileira em atividade, procuraria outro jeito de improvisar uma saída, talvez cobrando uma boa quantia em dinheiro pela afirmação, afinal a conversa, naturalmente, continua não levando a lugar nenhum.

O que importa é que acaba de ser lançado Região (Cia das Letras, 2012), reunião de quase toda a ficção curta de Zulmira desde 1974, assim como alguns poemas, mais dois contos semi-inéditos, além de um ensaio inédito, tudo misturado, enfim; pois isso sim deve nos levar a algum lugar: no mínimo, à livraria. O título do livro de Zulmira, seco e definitivo, vem acompanhado do subtítulo “ficções etc.”, que oferece a primeira pista a respeito da natureza de seus textos: trata-se de um livro híbrido, que não pode ser classificado por gêneros textuais – conto, poema, ensaio – e faz da incerteza sua única regra de composição.

Depois, o conto intitulado “Região” oferece a outra pista de leitura, que se refere ao tema principal – melhor seria dizer, o alvo – da literatura de Zulmira: a tradicional família paulistana, que só precisa de uma ou duas frases para se tornar patética. “A região é conhecida por Jardins”, é assim que começa o conto, uma referência aos bairros nobres de São Paulo, e logo é seguido por “Onde não há nenhum.” A série “O Tio Paulista”, personagem que sente tontura quando mal coloca o pé na capital e já vai medir a pressão, também é uma beleza.

Por sua vez, os conflitos são sempre dignos da melhor literatura de humor, como é o caso da triste história do sr. Plácido, que precisa, no mesmo dia, ir à Bienal de São Paulo, ao enterro de um provável amigo e ainda fazer o exame de fezes. O resultado de uma agenda tão lotada, como se verá, não será nada surpreendente.

Ler os livros de Zulmira é como namorar uma mulher bonita e austera: costuma dar um certo trabalho, mas no fim é recompensador. Por um lado, lembrando a imagem de um de seus próprios personagens, sua escrita poderia ser comparada a um caramujo, “duro e fechado”, mas também a um orgasmo, “simples e festivo”. Depois, pra quem não conhece nenhum de seus livros, evite ter que mentir aos amigos; Região oferece um panorama bastante variado de toda sua obra.

Por outro lado, seus leitores mais obstinados, aqueles que ficaram contando as décadas à espera de pelo menos “uma novelinha sobre os bordéis interioranos”, como diz Augusto Massi no posfácio de Região, talvez fiquem um pouco decepcionados com a escassez de textos inéditos no livro. De fato, Zulmira é uma escritora que publica pouquíssimo, e desde a década de noventa, por exemplo, quando lançou Cortejo em Abril, não lança um romance novo. Sei que não é da minha conta, mas fiquei me perguntando o que fez Zulmira durante todos estes anos que não escreveu umas trezentas páginas para alegrar os nossos corações aflitos.

* *


3 comentários:

Pádua Fernandes disse...

Caro Victor da Rosa,

a ausência de mais ficção nova deve ser contrabalançada com o livro de poesia que a autora recentemente lançou:
http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2011/05/de-zulmira-rt-ana-c.html
Abraços,

Pádua

Victor da Rosa disse...

Pois é, Pádua. O espaço é tão curtinho que sequer deu tempo de falar do Vesuvio... Sobre seu texto, eu li na semana passada! Grande abraço.

Pádua Fernandes disse...

Ela é interessante em mais de um gênero, o que é raro.
Abraços,

Pádua