25.4.13

Discurso da difamação do poeta

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Por Victor da Rosa


Lendo em retrospectiva a obra quase completa do mineiro Affonso Ávila, reunida no volume Homem ao Termo (Editora UFMG, 2008) - organizado em comemoração aos 80 anos do poeta que morreria 4 anos depois, ou seja, ano passado - o leitor talvez se assuste quando o livro chega em meados da década de 70, sobretudo em Discurso da difamação de poeta (1973-1976). Pareceu-me o ponto alto de sua obra poética, mas provavelmente há leituras bem divergentes por aí, já que, além do mais, trata-se de uma obra completa regular, com muitos livros e momentos distintos - depois de Discurso, há ainda em torno de 10 livros, como a A lógica do erro, de 2002. Eu diria, aliás, que há poucas peças na poesia brasileira tão contundentes, simpáticas e simples, ao mesmo tempo, quanto este livrinho. Os livros anteriores de Ávila, muitas vezes interessantes exercícios barrocos (Cantaria Barroca) e cabralinos (Carta do solo), quase sempre organizados por rigorosos padrões formais, dão espaço a uma irônica e corrosiva leitura da poesia moderna e do tempo atual, organizada por um procedimento banal e conhecido de todos: a fofoca maldosa, a difamação.

É verdade que Discurso também possui um padrão formal rigoroso e repetitivo, lançando mão, como chamou-me a atenção um amigo, e com razão, de um dos recursos de composição mais característicos do barroco: a fuga. Em resumo, a fuga consiste em apresentar um tema principal - que nos poemas do livro será anunciado sempre no primeiro verso, com auxílio do título - para relativizá-lo depois, sucessivamente, até o fim, por outras vozes, e apresentá-lo completamente pervertido no último verso, escrito sempre em caixa alta, como um grito de autoritarismo. O poema dedicado a T.S. Eliot, The Waste Land, por exemplo, abre com o seguinte verso como tema: "O poeta nasceu no barracão de um terreno da chácara no velho bairro do Calafete", e, após, sucessivas alterações, seis ou sete versos depois, lemos a chave de ouro: "O POETA FOI ABANDONADO NUM TERRENO VAZIO". Quer dizer, é exatamente como acontece na fofoca.  Já o último poema do livro, Pobre velha música, que se inicia com a plateia ouvindo o poeta atentamente, termina com a seguinte mentira: "A ATITUDE DIANTE DO POETA É O BOCEJO". Em outras palavras, a fuga barroca é contrapontista, polifônica - e, acrescentaria Affonso, também obscurantista (o livro é escrito em pleno período de ditadura) e dimafatória (em pleno período de jornalismo).  Abaixo, um dos poemas.

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1, THE WASTE LAND

O poeta nasceu no barracão de um terreno de chácara no velho bairro do Catafete

O poeta nasceu no barracão velho de um terreno no Calafete

O poeta nasceu no barracão de um terreno no Calafete

O poeta nasceu num terreno baldio no Calafete

O poeta nasceu num lote vazio no Calafete

O poeta nasceu num lote vazio

O POETA FOI ABANDONADO NUM TERRENO VAZIO

2 comentários:

Anônimo disse...

-comentário só, diboa- a sequência contrapontista > polifônica > obscurantista > diMaFatória dá a impressão, rima à parte, de que o autor quis criar neologismos eruditos ou esotéricos, o que, acredito, não é o caso. mas a estranheza faz o leitor dar um passo atrás, desconfiado, e dirigir um olhar de suspeita àquela fila de palavras... de resto, vamos apreciando a mineirice!

Victor da Rosa disse...

É mesmo! Termina a notinha com um palavreado, né? Ainda bem que é no final só... e logo depois já tem o poema pra desmentir.