22.4.13

Livrarias pra quê?

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 Por Victor da Rosa 
Publicado no Diário Catarinense

















A gota da água foi na última quinta-feira, quando tirei um livro do plástico pra ler as primeiras páginas e o vendedor, ao se aproximar subitamente de mim, tratou-me como se eu fosse, sei lá, um crítico literário. Por incrível que possa parecer, ele disse que eu não poderia ter feito aquilo e comparou meu gesto (no caso, o gesto de ler) com o de alguém que entra em nossa casa e vasculha nossas coisas sem pedir permissão. Metaforicamente, enquanto crítico literário, achei uma boa imagem, pois ler pode ser exatamente isto, mas o vendedor estava falando sério. Respondi dizendo que, tudo bem, eu aceitava as regras, mas meu coração naquele momento era como um tomate inflacionado. Pra que diabos deixar os livros embrulhados no plástico?

 Vou cada vez menos a livrarias, e olha que gasto um bom dinheiro com esses objetos estranhos, antiquados e maravilhosos – meu pai, por exemplo, que deve ter ancestrais turcos, fica com os cabelos que quase não tem em pé. A possibilidade que o leitor tem de folhear os livros antes de compra-los ainda parecia ser um dos poucos privilégios que as livrarias possuíam em relação aos modelos virtuais de venda. De resto, nas livrarias os livros costumam ser mais caros; os vendedores, com raríssimas exceções, não conhecem de literatura – pelo menos não mais do que o Google; os livros menos vendáveis, geralmente os melhores, não estão nas prateleiras e muito menos nas vitrines; a livraria mais perto de nossa casa costuma ficar a uma distância de 10km; não nos servem mais cafezinhos; etc.

 Não entendo nada de negócios, como se pode notar, e é bem possível que os donos de livraria estejam ganhando mais dinheiro do que o pai de Neymar e inclusive caçoando de mim enquanto leem esta linha, mas tenho a impressão de que, caso não sejam criadas formas de mediação mais sedutoras para a circulação de livros, as livrarias tendem a perder, no mínimo, seus melhores clientes. Em resumo, acredito que livrarias não deveriam ser grandes supermercados, abrindo mão da capacidade de oferecer surpresas e reduzindo livros à condição de mercadorias. Se a ideia de que é mais charmoso pensar assim soar muito antiquada, o argumento de que pagamos caro pelos livros deve valer?

 Livros são produtos, sem dúvida. Só que não são produtos comuns. Não digo isso por fetiche, nem por achar que livros são objetos elevados, mas simplesmente porque não são produtos como geladeiras, bicicletas ou sapatos. Aliás, o tratamento do livro enquanto fetiche é tão problemático quanto sua redução à mercadoria. Seja como for, uma geladeira você compra, liga na tomada e, se nada der errado, logo estará funcionando. Além do mais, uma geladeira costuma ser bastante útil. Livros, não. Na maioria das vezes, eles trazem problemas, tomam tempo, ocupam espaço e exigem mínima formação. Quando você tem mais de quinhentas unidades, eles se tornam mais pesados do que geladeiras. Enfim, por que não buscar fazer das livrarias um lugar de encontro?

 Não digo também que as livrarias devam se responsabilizar pela tarefa das escolas. Por outro lado, é preocupante que livreiros, por exemplo, não saibam quem é Samuel Beckett, como frequentemente acontece em livrarias da cidade. Não estou falando de Kurt Vonnegut e nem de Knut Hamsum, e sim de Beckett, um escritor frequentemente traduzido e publicado por grandes editoras brasileiras. Recordo que, ao pronunciar o nome de Beckett, fui surpreendido com um olhar fulminante de desprezo, como se eu tivesse realizado um ato de profundo desrespeito ao falar de um prêmio Nobel dentro da livraria. Talvez, se os livros não tivessem embalados em sacos plásticos...

6 comentários:

Leonidas Hipolito disse...

Antigamente era chamado de "Livreiro" a pessoa que atendia nas livrarias, hoje em dia boa parte dos funcionários são chamados de "tiradores de nota fiscal", assim fica mais fácil entender pq não tirar o plastico de uma livro....

Anônimo disse...

Gostei muito deste texto, que só agora, vim aqui ler embora o jornal impresso esteja ali sobre a mesa. Pois eu vou te dizer que compro livros só pelo prazer de comprar. Estive recentemente na capital (SC) e trouxe o lançamento do Leminski mas ainda não abri.Vou a lançamentos e dou livro de presente a bessa. Por outro lado olha só que incrível: hoje meu amigo aqui de Laguna me convidou para abrirmos uma livraria e prometi que pensaria com carinho na idéia.
Não tenho ilusões Victor, gente que gasta dinheiro com obras de literatura está rareando. Na verdade eu penso mesmo que um livreiro deve curtir a sua bodega e saber que vai fazer amigos, vai realizar uma façanha mas não ficará rico. Mas Victor, de que adianta viver a vida se não for pra fazer algo que nos embale em sonhos? Dinheiro? Foi feito pra dar trôco!Abraço. Fatima/Laguna.

Fabricio C. Boppré disse...

"Dinheiro foi feito para dar troco". Muito boa essa do comentário de cima, hein?

Victor, ó: http://www.blogdacompanhia.com.br/2013/04/promocao-300-titulos-com-50-de-desconto/

Se tu fosse me dar um livro desses acima de presente, qual seria? Para ti, acho que eu daria um do Javier Marias. Não é adivinhação não -- acho que já te vi falar desse cara. E li algo bem elogioso a respeito de uma obra dele que não está entre estas em promoção, infelizmente ("Os Enamoramentos").

Victor da Rosa disse...

Eu gostei muito de ler a biografia da Carmen Miranda, escrita pelo Ruy Castro. Como todas as biografias do Ruy, é divertidíssima. Se eu não fosse um profissional da leitura, eu só teria livros divertidos. Com desconto, fIcou por 33. Eu não daria Saramago nem Paul Auster.

Fabricio C. Boppré disse...

Eu ficaria feliz com a bio da Carmem Miranda. Sei bem pouco dela. Aliás, quando penso nela, automaticamente me vem à mente o Zé Carioca. Saramago e Auster são bons presentes, mas concordo, tem melhores ali... Só livros divertidos? Mark Twain! Os livros dele são muito engraçados.

MCris disse...

Não sou eu que não tô curtindo / é teu coro que desafinando / teu compasso que diminuido / é tua mira que tá mosqueando...

Não sei, fiquei com essa canção (da qual eu gosto muito, aliás) na cabeça ao ler o teu post.

Escuta e vê se faz sentido:
https://www.youtube.com/watch?v=-ZM0FvjMSoA