8.4.13

Maltrata de vez

Por Victor da Rosa
Publicado no Diário Catarinense
.


Era preciso ter muita imaginação e boa dose de otimismo pra supor que o Raça Negra voltaria à moda em pleno 2013, ano em que o grupo de pagode, aliás, completa 30 primaveras de existência. Confesso que não escutava a canção Cheia de Manias, por exemplo, desde uma memorável festinha americana que frequentei com o consentimento da minha mãe, acho que em meados de 1994, período conturbado e nebuloso da história brasileira, como se pode notar. O grupo fazia sucesso, tinha acabado de lançar um LP cujo hit era nada menos do que a regravação da canção imortalizada por Cazuza, Pro Dia Nascer Feliz, e tocava no walkman de quatro em cada cinco brasileiros do bem.

 Você percebe que um grupo musical entrou no limbo, porém, quando 1) lança acústicos, 2) lança discos com o título Nossa História, 3) faz shows com amigos de outras bandas ou 4) o líder da banda se candidata a deputado estadual. Foi o que aconteceu com o Raça Negra nos últimos 15 anos, lamentavelmente. Aliás, a história do grupo poderia ser resumida como uma Divina Comédia particular: quase 10 anos fazendo shows pra umas duzentas pessoas, depois 5 anos de sucesso absoluto – quando o grupo reuniu mais de 1 milhão de pessoas em um único show, batendo recorde de público no Brasil – e mais 15 anos de limbo.

 Só que agora, impulsionado pela onda revival que impera em nossos dias não menos imprevisíveis, e às vezes também muito divertidos, o grupo entra em uma nova fase de sua história – é a fase que estamos chamando de “maltrata de vez”, pra lembrar uma das imagens antológicas de Vida Cigana. Ou seja, pra quem resistiu bravamente ao charme do Raça Negra até hoje, pra você que não sente o coração palpitar ao ouvir “Didididiê” e ignora o verdadeiro sentido do verso “um motelzinho você fecha a porta”, chegou a hora de se entregar – de vez – pois além do mais virou cool ter Raça Negra na play list.

Prova disso é o disco Jeito Felindie, delicioso tributo ao Raça Negra realizado por 12 nomes da novíssima música alternativa brasileira, ou seja, gente com poucos seguidores ainda nas redes sociais. Seja como for, as canções são capazes de viciar até as pessoas sem coração. Os grandes sucessos estão todos lá, só que tocados com arranjos diferentes e quase sempre com uma interpretação toda melancólica – quando termina É Tarde Demais, por exemplo, levamos em consideração a ideia de nos jogarmos pela janela. Dia destes, em um jantar na casa de um amigo onde eu não conhecia quase ninguém, falei do tributo e dei a ideia de colocar pra tocar. Metade da mesa fez silêncio e outra metade me olhou torto. Em 20 minutos, dois rapazes estavam enviando mensagens para as ex-namoradas.

 Algo que nos faz simpatizar com o Raça Negra, pensando bem, está na ingenuidade que marca toda sua trajetória, diferente de outras agremiações do gênero. Tudo no grupo é prosaico, desde as canções até o nome do vocalista, Luiz Carlos (da Silva), que, aliás, preferiu não inventar apelido artístico, mantendo seu nome de taxista ou porteiro de prédio, sem frescuras. De fato, assim como os outros integrantes, Luiz Carlos jamais fez luzes no cabelo, não sensualiza na hora da dança e nem se envolve em polêmicas no trânsito, salvo engano – a maior extravagância do cantor é usar uma calça de couro de vez em quando. Tudo isso, no entanto, não deixa de ser uma espécie de mistério que, por assim dizer, faz com que “nem mesmo o tempo seja capaz de acabar com o nosso amor”.

* *


Nenhum comentário: