1.4.13

No meio do viaduto

 Por Victor da Rosa 
Publicado no Diário Catarinense














Tornou-se célebre a cena em que Carlos Drummond de Andrade, no fim dos anos 20, ao voltar pra casa tarde da noite, escalou um dos arcos laterais do viaduto Santa Tereza, em Belo Horizonte – pra quem não conhece, o arco possui mais ou menos 1 metro de largura e sua altura equivale, por exemplo, a um prédio de 6 andares (ou seja: se caiu, morreu). Na verdade, não se trata apenas de uma cena, e sim de uma prática, já que Drummond realizou a escalada mais de uma vez, às vezes bêbado. Em uma das ocasiões, um guarda deu voz de prisão ao poeta, que imediatamente lhe desafiou:

 – Então vem pegar.

 A cena desatinada, contada originalmente por Pedro Nava – com quem Drummond, nessa mesma época, quase incendiou sem querer a casa de uma garota, só pra chamar sua atenção, e o máximo que conseguiu foi queimar o próprio filme – poderia servir como síntese do delicioso livro de Humberto Werneck, O desatino da rapaziada (Cia das Letras, 2012). Trata-se de uma crônica de fôlego, amparada em vasta pesquisa, sobre a vida intelectual mineira depois do poeta de Itabira e antes do contista Luiz Vilela, período em que, segundo consta, os escritores eram menos caretas, mais inconsequentes – em suma, meio desatinados.

 Digo que a escalada de Drummond poderia servir como síntese da crônica de Werneck porque, além do mais, como uma espécie de ritual, a cena foi fartamente repetida pelos escritores das gerações seguintes, como é o caso de Fernando Sabino, que inclusive corria sobre o arco e também exagerava quando lhe perguntavam a altura do perigo, aumentando o feito – “uns 50 metros, sem dúvida”. Ao lado de Paulo Mendes Campos, Hélio Pelegrino e Otto Lara Resende, este um grande frasista – autor de pérolas como: “Minas está onde sempre esteve” – Sabino fazia parte do grupo “os quatro grandes”, como eles se autointitulavam, espécie de ponte (ou viaduto) entre os modernistas e a geração do Suplemento Literário.

 Não só os escritores mineiros são personagens da crônica de Werneck, mas também muita gente que passou por Belo Horizonte, uma cidade ainda provinciana naquele tempo. Graciliano Ramos, por exemplo, em 1947, causou péssima impressão ao dizer que poesia era “coisa de efeminados” e que García Lorca não passava de “um puto”. Três anos antes, Vinícius de Moraes também causou escarcéu ao publicar um artigo com título sugestivo: Carta contra os escritores mineiros. Por estes anos, em plena vigência da Segunda Guerra, Oswald de Andrade deu uma palestra exaltada atacando os escritores católicos e acusando Otto Maria Carpeaux de ter ligações com o nazismo. Dizia Oswald:

 – Trocai as serenatas pelas metralhadoras!

 Há espaço no livro ainda para os ilustres desconhecidos – ou, sendo mais justo, pouquíssimo lembrados – como é o caso de Rosário Fusco, um dos precursores do realismo fantástico no país e do palavrão na imprensa mineira. Dentre as histórias bizarras de Fusco, estão as sete cerimônias de casamento que realizou, todas com a mesma mulher, sendo que na última delas, já no fim da vida, o escritor convidou o próprio filho pra ser um de seus padrinhos – e o filho, com 11 anos de idade, aceitou. Por outro lado, para surpresa de todos, Fusco não gostou nada quando foi homenageado em sua cidade natal com um nome de rua.

 Ficamos sabendo ainda que Cyro dos Anjos frequentava velórios pra jantar e Rubem Braga ganhou boa grana plagiando umas crônicas de Drummond. Enfim, saímos da leitura sem saber se a vida mineira é que foi especialmente fértil em produzir excelentes histórias ou se Humberto Werneck é que sabe contá-las como poucos – seja como for, uma hipótese não exclui a outra. O certo é que a geração mais brilhante de cronistas brasileiros, por exemplo, pode ser conhecida ali, o que faz pensar que Werneck, ele também mineiro, está contando sua própria história. Que o cronista não invente, portanto, a esta altura da vida, de fazer malabarismos no arco do viaduto.

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