29.4.13

S., uma leitora


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Por Victor da Rosa
crônica publicada no Diário Catarinense
















S., que prefere não ser identificada, é uma leitora. Até poesia contemporânea S. lê. Em um país que, segundo uma equação impossível, porém muito verdadeira, há mais escritores do que leitores, S. preferiu seguir um caminho diferente, mais difícil e às vezes até mesmo estigmatizado – inclusive, algumas vezes, pelos próprios escritores. É de ficar pasmo. Nos círculos literários, quando perguntam a S. se ela não escreve poemas, se nunca escreveu, se não tem um blog, um caderninho de anotações, enfim, se nunca pelo menos pensou nisso, todos costumam ficar desconfiados com a resposta:

– Nunca.

– Nem crônica?

– Nem crônica.

Muitos escritores costumam ficar meio assim com S. porque, na maioria dos casos, a moça lê mais do que eles próprios. Como se sabe, há uma disputa silenciosa nos círculos literários pra ver quem compra mais livros e quem tem a biblioteca maior, disputa cujo grande vencedor é sempre o sistema capitalista. E como S. não perde tempo escrevendo, ela já sai na frente. Aliás, perder a disputa para um diletante, como é o caso de S., costuma ser ainda pior. Mas S. não faz isso por mal. Além do mais, ela não gosta nem de falar sobre esses assuntos:

– Nem sabia da disputa – diz ela que, além de não escrever poemas, também fala pouco, dois méritos que merecem nossa consideração.

Mudemos de assunto, portanto. Vamos falar de sua história.

A história de S. com a leitura já tem uns 150 anos. Sua bisavó, que era muito amiga de Machado de Assis e chegou até a publicar uns poemas no fim do século XIX, era uma daquelas dondocas que não precisavam fazer nada, e por isso passava os dias inteiros se dividindo entre a costura e a literatura. Nem lavar a louça, lavava. Isso que a gente saiba. Enfim, uma vida boa. Depois veio a vó de S., outra vida boa, que ainda corrigiu a família e teve o mérito histórico de não publicar seus poemas, que ficaram como espólio da família. Por sua vez, a mãe de S., que guarda com carinho um retrato em que aparece abraçada com João Cabral de Melo Neto, nem chegou a escrevê-los. De modo que S. se considera vacinada.

Diferente de sua bisavó, no entanto, S. não tem vida tão fácil. É advogada. Nas audiências, por exemplo, ela vive citando Guimarães Rosa pra defender vagabundo. E diz que dá certo. Poesia boa é uma coisa que sensibiliza até juiz com sono.

S. revela que o melhor de ser leitora, e não escritora, além de mais original, e ela preza por originalidade, é que não há muita concorrência. Também porque S. quis manter a tradição das mulheres da família de não atrasar os alugueis, mas isso é o de menos. Quando chega a lançamentos de livros ou qualquer evento literário, os holofotes caem todos sobre ela. Todos os escritores, mesmo aqueles que têm inveja de sua biblioteca e desenvolvem doenças irreversíveis por conta disso, bajulam nossa leitora que, embora seja modesta, não deixa esconder certa satisfação.

– Sinto que os escritores gostam de mim, sempre que vou a lançamentos compro os livros, diferente dos críticos.

No último ano, S. está à frente do ANLSC, Associação Nacional de Leitores Sem Compromisso, grupo que, desde 2005, pretende reunir leitores do país inteiro. Digo que pretende porque, segundo S., é muito difícil encontrar leitores que cumpram todos os pré-requisitos da Associação, que é rigorosa em seus critérios. Depois de inscrito, não pode participar de saraus, por exemplo. Também é proibido, naturalmente, ser escritor. Críticos literários, nem pensar. No ano passado, foram descobertos novos 23 leitores distribuídos pelo país. Em 2013, a estimava é que aumente. Eu mesmo, por ter publicado poemas durante a adolescência, tive meu pedido embargado.

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3 comentários:

Marina Câmara disse...

Muito bom!

Anônimo disse...

Ufa coquetéis são livres. E não poder participar de sarais e uma dádiva.

Fernando Farias disse...

Realmente é muito ler um livro do que escrever. Maravilha de crônica. Ou um conto? ou um poema?