24.4.13

Paris era uma guerra

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Por Victor da Rosa


















A última linha de Ilusões Perdidas, talvez o grande livro de Balzac - livro que guia, por exemplo, teorias do romance como a de Lukács, Auerbach e até mesmo, hoje em dia, a de Franco Moretti - já anuncia um procedimento da literatura de mercado, ou seja: nos convida a comprar seu próximo livro. Durante quase 800 páginas, o leitor acompanha a verdadeira aventura que é a vida de Lucien, sendo levado a imaginar, a todo momento, qual destino terá o poeta provinciano que se arrisca em Paris - o sucesso? o suicídio? uma lição? - para então, somente no fim, depois de grandes reviravoltas, saber que "sua volta a Paris pertence ao terreno de Cenas da vida parisiense". Sem dúvida, um anticlímax. A rigor, quase 200 anos depois, como se sabe, trata-se do mesmo recurso usado pelas telenovelas não no fim definitivo de suas histórias, mas no encadeamento dos capítulos - deixar a trama aberta pra seduzir o espectador no dia seguinte. E Ilusões perdidas não deixa de ser o capítulo de uma trama maior e inesgotável, em que personagens desaparecem em um livro e reaparecem em outro, a trama da Comédia Humana.

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Não é em vão que Balzac, em algumas de suas cartas, se comparava a Napoleão. Diferente da experiência de Hemingway, a Paris de Balzac era uma guerra - cuja bandeira, por sua vez, era o poder e o dinheiro. Ao voltar da capital para a província, com o fracasso e o desespero nos bolsos, sem dinheiro e com uma ilusão a menos - na verdade, mais de uma -, Lucien está "vestindo uma pequena sobrecasaca bastante estragada pela viagem e uma calça preta com manchas de desbotado", além de "botas surradas que mostravam que ele pertencia à classe desafortunada dos pedestres". A impressão é que o poeta volta não de uma temporada na capital das galerias e das passagens cobertas de vidro, e sim, como se verá, de um campo de guerra. A descrição do traje, nesse sentido, é reveladora. Algumas páginas depois, já de volta à província, Lucien escreve a seus amigos de Paris solicitando roupas novas, e dirá:  preciso envergar minhas armas!

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