21.4.13

Vida Férrea

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Por Victor da Rosa

Digamos que Via Férrea, de Mário Alex Rosa, é um único e grave poema sobre uma travessia interior. A imagem da estrada férrea, neste livro, ao menos em sua primeiro leitura, não sugere a aventura da viagem, a surpresa do que nunca foi visto e nem a possibilidade de encontro com o outro. Antes, trata-se de um longo monólogo – bastante delicado, mas também opressivo – em que a plateia se resume a um espelho “que nada fala, só devolve a minha imagem”. Aliás, a plateia não se resume apenas ao espelho, mas também aos dias passando, às paredes e ao “silêncio dentro da boca”.

 E digo que é um poema único porque, como em uma estrada férrea, parece não haver intervalo e nem fim, e sim um constante adiamento, como indica desde o começo a epígrafe de Kafka: “A partir de certo ponto não há mais possibilidade de retorno. É exatamente esse o ponto que devemos alcançar”. Armando Freitas Filho também tem razão quando afirma, na orelha do livro, que os poemas estão engatados a ponto de parecer que saem um do outro. De fato, os motivos e as imagens se repetem, atribuindo um ritmo monótono ao poema; e as marcas da passagem do tempo se sobrepõem: a poeira, as tardes e os dias da semana, que aliás servem como título para uma série de poemas, se intercalam como se o livro fosse um calendário, uma bússola. “(...) Não vê / como estou agora, aos gritos, e não se passou / mais que meia hora”, lemos em “Janela”.

 A passagem do tempo pesa. Diferente de Ouro Preto – livro anterior de Mário Alex, lançado há menos de um ano, embora tenha sido escrito depois – neste Via Férrea há pouco espaço para os materiais leves: “Às dez da manhã veio a inevitável lembrança / daquele pássaro que um dia ‘se esfacelou na asa do avião’”. Em outras palavras, “o salto é zero” e as anotações estão “asfixiadas pela constatação / de que tudo vai dar em nada.”, lembrando a melhor tradição negativa da poesia brasileira, de Drummond ao contemporâneo Ronald Polito, dois poetas de quem Mário Alex é leitor assíduo.

 Menos discursivo, mais agoniado, Via Férrea trata de uma travessia escura e à deriva, daí os poemas surgirem um do outro, de repente; enquanto em Ouro Preto já existe a possibilidade de olhar para trás. Em um livro, portanto, a memória; no outro, a asfixia. A meu ver, está justamente na asfixia a tensão central deste livro de Mário Alex – “na mão que fica entre o escrever e o cortar-se”. Neste sentido, a palavra férrea do título, além da estrada de ferro, diz respeito também a ferrugem e ao verbo ferrar, que no limite nos leva ainda a teimosia, dureza e repetição. Agora, ao olhar pra trás, só existe uma mesma sombra e a noite vasta.

 Por exemplo, em “Bicho”, primeiro poema do livro, “a dor que não adormece” é comparada à pele de “um bicho ferrado”, sendo que a convivência com a condição animal não deve deixar de ser notada. Já em “Via de mão dupla”, poema que expõe a indecisão entre grito e silêncio – o primeiro consente, o segundo confirma –, a falta é definida como “uma ferrugem se autocorroendo”. Primeiro ferra, depois enferruja. Em ambos os casos, é a própria vida (férrea) que está sendo exposta.

 E além do tempo, também o corpo pesa. Quanto a isto, há pelo menos duas imagens de grande impacto no livro. Na primeira: “Os braços chumbados / não suportam a segunda-feira”, enquanto na outra, que parece repetir o mesmo, “a camisa de força” quer controlar o que não pode ser controlado. São estas duas imagens que me fazem pensar no grande elemento ausente do livro, antítese e espécie de trauma que não pode ser enunciado e que, no entanto, está anunciado no título e em todas as linhas, para dizer a verdade – a violência, o confronto e a monumentalidade do trem. É que sua escrita, além do mais, parece correr assim: circulando um objeto, sondando, cautelosamente, embora com certa insistência, e se recusando talvez a dizê-lo.

 Existe ainda uma pequena virada em Via Férrea, manobra difícil e necessária, “a rara felicidade / de dizer o indizível”. É verdade que os últimos poemas possuem uma paisagem mais iluminada: um clarão no escuro e a tentativa, portanto, de “riscar um verso ao rés da vida”. No último poema – quer dizer, no limite – é a própria via férrea, antes abandonada e escura, que agora surge, quem sabe, como saída do poema. E não se sai do poema como entrou, mas de “mãos lavadas, peito fechado. / (...) aberto a tudo, sujo, sem máscara”. Uma última definição da vida férrea, afinal.

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