6.5.13

A picareta do crítico

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Por Victor da Rosa
crônica publicada no Diário Catarinense














No capítulo 25 das Ilusões Perdidas, de Balzac, intitulado "As Primeiras Armas", o jornalista malandrão Lousteau dá algumas dicas para que o jovem Lucien possa se tornar um grande crítico em Paris. Na verdade, antes de qualquer lição, Lousteau faz uma recomendação, acompanhada do livro de um desafeto: "com um artigo, é preciso destrui-lo". Diante da resistência de Lucien, que responde não ter como fazer isso, pois "o livro é bonito", Lousteau argumenta: "Quanto a isto, aprenda sua profissão. Mesmo se fosse uma obra prima, o livro deve se tornar uma rematada bobagem em sua pena, afinal a polêmica é o pedestal das celebridades." A seguir, um compêndio das lições atualizado para os dias de hoje.

1. Comece elogiando a obra. O público pensará: este crítico não é invejoso, certamente será imparcial. Você será considerado consciencioso. 

2. Assim que conquistar a estima do leitor, lamente ter de criticar a situação em que livros semelhantes acabarão aumentando o vazio e a irrelevância da literatura contemporânea.

3. Encaixar, nesse momento, algum elogio a um clássico nacional. No caso, Lousteau cita Voltaire e Rousseau, mas também cabem Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade.

4. Solte axiomas e frases feitas. Por exemplo: "Um grande escritor na França é sempre um grande homem, ele é obrigado, pela língua, a sempre pensar ". Para o nosso país, funcionaria algo do tipo: "No Brasil, todo escritor já nasce transgredindo alguma coisa, nem que seja a cesariana".

5. Depois de citar clássicos nacionais, cite um escritor estrangeiro obscuro, como um moralista alemão do século XVII. "Não há nada que firme tanto um crítico quanto falar de um autor estrangeiro desconhecido", reflete nosso professor.

6. Uma frase que resuma aos leigos o método de nossos autores geniais. Sempre é importante conquistar os leigos, eles são numerosos. Lousteau fala da “literatura de ideias”, mas podemos lembrar, hoje em dia, da Semana de 22.

7. Não deixe passar a oportunidade de "jogar todos os mortos ilustres na cabeça dos autores vivos". Enfatize qualquer coisa como: na literatura de hoje se abusa dos diálogos, esta fórmula fácil. Fulmine a arte atual dizendo que qualquer leigo pode fazer igual. Os leigos, curiosamente, detestam os seus pares.

8. Já é hora de voltar ao livro criticado. Dê um jeito de fazer toda essa argumentação cair sobre a obra, dizendo que o autor é um imitador, que falta a ele a grande força dos clássicos.

9. É hora também de lascar outra frase feita. Não abuse delas, mas jamais abra mão desse recurso maravilhoso. A frase feita é boa principalmente para que o público tenha o que repetir depois. Sugestão de Lousteau: "A vida não é mero movimento, ideias não são meros quadros".

10. Comece a concluir. Diga que, apesar dos méritos da obra, ela parece de gosto fácil. Este é um momento bastante delicado do artigo. Faça críticas em tom vago e sugestivo.

11. Enfileire outros autores reconhecidamente ruins e coloque a obra criticada ao lado de más companhias. Há sempre um exército deles por aí.

12. Antes de terminar, o crítico deve se entregar a lamentações. Lamente, por exemplo, a decadência do gosto. Cai bem enfileirar também elogios a autores do seu partido. Você precisa urgentemente decidir se é governista ou não.

13. Hora de uns elogios! Diga que seus pares "lutam pelo estilo e pela ideia, contra a imagem e a verborragia". Faça outra lista, agora dos grandes autores de seu tempo. Listas são importantes pra fixar ideias.

14. "Salpique tudo com espírito, tempere com um filete de vinagre e a obra estará frita  na frigideira dos jornalistas", diz finalmente Lousteau. Ainda dá tempo de consolar os mais sensíveis dizendo que o autor em questão tem talento e poderá nos reservar obras de grande mérito, no futuro. Esta parte será rapidamente esquecida.

2 comentários:

Lengo D'Noronha disse...

muito bom.um manual melhor que o dos escoteiros. abraço.

Marina Câmara disse...

Adorei! Especialmente: "Os leigos, curiosamente, detestam os seus pares." e: "A frase feita é boa principalmente para que o público tenha o que repetir depois." Senso de humor incrível!